Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
Pesquisar canções e/ou artistas
08 setembro 2024
Mudar: método
Édouard Louis não nega que sua escrita tem forte inspiração na obra de Didier Eribon. Numa perspectiva mais irritada, pode-se mesmo dizer que MUDAR: MÉTODO é um canto paralelo, uma paródia, uma diluição de "Retorno a Reimns", livro de Eribon citado e referenciado por Louis. Mas há algo de singular em MUDAR: MÉTODO, as nuances da classe social. E isso é, talvez, o que de melhor a obra de Louis provoca: lembrar que a classe é um dos eixos onde o sujeito está e é no mundo. Como não me reconhecer nos momentos em que o pequeno Louis, ou seja, o ainda Eddy Bellegueule, vai à casa de vizinhos pedir comida? Era eu quem ia à quitanda pedir fiado, pois a mãe "sabia que uma criança despertaria mais facilmente pena do que um adulto". Os momentos de camuflagem do sotaque também batem fortes. Ou quando os vizinhos perguntam "por que o Eddy fala assim, igual a uma menina? Por que vira as mãos quando fala? Por que olha desse jeito para os outros meninos? Será que ele não é meio viado?". Louis narra seu método de mudança, suas dores e delícias na tentativa de inclusão num mundo em que ele crer melhor: o burguês. Tornar-se burguês é o imperativo, afinal. É essa transição do filho de operário a leitor (Louis lê todos os nomes de prestígio literário e sabe traduzir bem e incorporar com eficácia seus pensamentos) e escritor burguês o que MUDAR: MÉTODO revela sem autopiedade. "Ao imitar essa vida, eu acessava um mundo que sempre o intimidou", escreve aqui; "A burguesia ia ao teatro ou à ópera, para nós era o supermercado que nos fazia sonhar", escreve ali. A tradução de Marília Scalzo encontra o tom certo para fazer o narrador conversar com leitores diversos e distantes: do interior da França ao interior do Brasil.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário