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12 janeiro 2015

Abraçar e agradecer



O primeiro texto declamado por Maria Bethânia, logo após apresentar a segunda canção (“Dona do dom”, de Chico Cesar), e os derradeiros acordes do espetáculo com a vinheta de “Carcará” dão algumas chaves de leituras possíveis ao entendimento da extraordinária juventude presente em Abraçar e agradecer.
“Chegar para agradecer e louvar (...)”, começa o texto condensador daquilo está proliferado ao longo do roteiro: o cantar – “O eterno em mim”, de Caetano Veloso, e “Dona do dom”; as reminiscências – “Gita”, de Raul Seixas e Paulo Coelho, “A tua presença” e “Nossos momentos”, de Caetano Veloso, “Começaria tudo outra vez”, de Gonzaguinha, “Gostoso demais”, de Dominguinhos e Nando Cordel, e “Bela mocidade”, de Donato Alves; o sim à vida – “Alegria”, de Arnaldo Antunes, “Voz de mágoa”, de Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro, “Dindi”, de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira, “Você não sabe”, de Erasmo Carlos e Roberto Carlos, “Tatuagem”, de Chico Buarque, “Meu amor é marinheiro”, de Manuel Alegre e Alain Oulman, “Todos os lugares”, de Suely Costa e Tite de Lemos. Fechando o ato 1 com a afirmativa “Rosa dos ventos”, de Chico Buarque.
No ato 2 temos: “a mão de água (...) a água de minha terra” –  “Tudo de novo”, de Caetano Veloso”, “Doce”, de Roque Ferreira, “Oração à Mão Menininha”, de Dorival Caymmi, “Eu e água”, de Caetano Veloso, “Abraçar e agradecer”, de Gerônimo e Vevê Calazans; “as vozes que soam de cordas tênues” – “Vento de lá - Imbelezô” e “Folia de Reis”, de Roque Ferreira, “Mãe Maria”, de David Nasser e Custódio Mesquita, “Eu a viola e Deus”, de Rolando Boldrin, “Criação”, de Chico Lobo, “Casa de Caboclo”, de Paulo Dafilin e Roque Ferreira; “tudo que canta livre no ar, no mato, sobre o mar” – “Alguma voz”, de Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro, “Maracanandé” (canto Tupi na voz de Márcia Siqueira), “Xavante”, de Chico Cesar, “Povos do Brasil”, de Leandro Fregonesi, e “Motriz”, de Caetano Veloso; as marés do tempo – “Viver na fazenda”, de Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro, “Eu te desejo amor”, de Charles Trenet, “Non je ne regrette rien”, de Michel Vancair e Charles Dumont, e “Silêncio”, de Flávia Wenceslau.
Esses blocos de canções se contaminam, além de serem costurados por textos de Clarice Lispector, Waly Salomão, Carmen de Oliveira e Fernando Pessoa. Aliás, as declamações dos textos funcionam para a platéia como momentos de expiração, já que por vezes os bonitos arranjos engatilham tão rápido uma canção à outra que a respiração chega a ficar suspensa. Outrossim, sendo mais espetáculo e menos show, Abraçar e agradecer não dá espaço para que a cantora se dirija à plateia. Isso poderia soar como indelicadeza, mas tudo está dito nas letras das canções, na gestualidade vocal de Bethânia e na movimentação corporal da artista: “flor mestiça que não tem receio em ser brasiliana quando aflora” no palco. Afinal, “viver é a própria cantiga”.
O roteiro criado por Bethânia para Abraçar e agradecer não é previsível, ao contrário, foge daquilo que se esperaria de um típico show em comemoração aos 50 anos de carreira. Sem olhar retrospectivo saudoso, o espetáculo traz reminiscências, releituras, inéditas, afirma o presente, é o livro dos prazeres daquilo que passou e marcou a voz da cantora a frio, a ferro e fogo em carne viva. O elegante figurino assinado por Gilda Midani beija Oxum e Iansã. Na cenografia de Bia Lessa, o telão de LED não está no fundo do palco, está sob os pés nus de Bethânia, para que a cantora clareie tudo e a todos. Ela é o centro. E, com belos movimentos, a cenográfica iluminação criada por Binho Schaefer foge da repetida luz que desde Brasileirinho víamos nos espetáculos da artista.
Em cena, menos um musical sobre a carreira e mais, muito mais, uma artista-autora que pega, mata e come o caminho percorrido, as tristezas, dúvidas e alegrias, vira mundos de pernas pro ar e sabe que tem o que agradecer, louvar e abraçar, pois é uma carregadeira de amor. E como se cada verso, cada palavra fosse para si, de si, a voz de Maria Bethânia está acesa como sempre. Ela não canta o esperado, canta o sonho impossível. Luz, voz e sensualidade, Bethânia é sereia que há 50 anos rabisca corpos e ensina a brincar de viver.

2 comentários:

luis claudio de oliveira disse...

Lindo,emocionante e bem construído texto! Reflete, com precisão, todo o espetáculo arrebatador. O texto revela nuances cheias de simbolismos do show. Propõe um roteiro para entendê-lo melhor. Valeu!

Fernando de Sá Leitão disse...

Maravilhoso texto, que desnuda e veste esse espetáculo que é Maria Bethânia.