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11 janeiro 2026

Permanecer bárbaro


Leio o livro PERMANECER BÁRBARO de Louisa Yousfi e repenso a incorporação crítica da violência do Estado nas letras, performances e atitudes dos rappers: “O racismo destrói suas vítimas para que elas se comportem exatamente como previa a grande narrativa do Império, como uma alteridade brutal e vingativa, como primitivos”, escreve Yousfi. A autora debate o fato dos marginalizados serem transformados em “objetos de consumo”: “todas as marcas de luxo têm linhas streetwear. O rap é a música mais baixada na França. A rua molda toda a cultura visual da nossa época. Nós, mulheres da imigração, agimos para sermos aproveitadas não mais pelo Estado, mas pelo business”, lemos. A conclusão da autora é contundente: “Escrevi esse livro porque fracassei. Não permaneci bárbara”, confessa ao final; e pergunta: “Como rasurar a lição de casa quando a responsabilidade da família recai tanto sobre os nossos ombros, quando nossa voz constitui a ocasião rara para os nossos de ter um lugar na conversa?”. O subtítulo "Não brancos contra o império" é um diagnóstico e um convite. Yousfi é uma mulher não branca na França. A jornalista e crítica literária fala em “asselvajamento”, “permanecer bárbaro”. Tratando do grupo francês de rap PNL, Yousfi escreve que "Se você não é da família, não vai entender nada. Liricamente, foneticamente, musicalmente, tudo para você parecerá ininteligível, talvez até ridículo. Não procure saber mais. Esse universo não é feito pra você e ninguém será capaz de explicá-lo a você, simplesmente porque essas coisas não passam pelo sentido, mas pelo pertencimento ao grupo, pelo pertencimento ao sangue. Paciência se não há diálogo". PERMANECER BÁRBARO põe pingos nos is - os monstros que tanto ameaçam a vida do ex-cêntrico, do estrangeiro, do bárbaro, do à margem se alimentam do excesso de integração, de civilidade, de cultura, de Império; e não o contrário, conforme anunciado pelo próprio Império. "Quem tem consciência para ter coragem?", perguntavam os Secos & Molhados no Brasil do início dos anos 1970. A pergunta reverbera enquanto leio PERMANECER BÁRBARO de Louisa Yousfi.

04 janeiro 2026

Heptalogia


Virei 2025 para 2026 lendo HEPTALOGIA, de Jon Fosse. Presente de meu amigo e mestre Amador Ribeiro Neto, que apenas disse "pelo quanto que amamos a obra literária pela literariedade". HEPTALOGIA não é livro que se resume, que se resenhe, sem perda significativa da experiência de leitura. Dizer que é a narrativa de um pintor atormentado pela crise de criatividade, é pouco; dizer que é um livro que experimenta na pontuação, é pouco; dizer que é uma escrita de fluxo de consciência em que lemos o eu - Ales (pintor enlutado) - e seu duplo - Ales (pintor alcoolista) - em pleno ápice da maturidade autocrítica, é pouco; dizer que se trata da conversão de um ateu ao catolicismo, por causa da amada morta, cujo nome é Asle (não à toa anagrama de Ales), é pouco; dizer que se trata de um ensaio sobre arte ("um bom quadro precisa trazer alguma feiura em si para poder brilhar como deve, precisa conter a escuridão"; "porque a arte tem a ver com qualidade e nada a ver com gostar ou não gostar"), é pouco. HEPTALOGIA imprime o tormento da arte, a tal "literariedade". Para isso, tão importante quanto o conteúdo é a forma como Jon Fosse trata dessas e de outras questões. Lemos que "(...) justamente por essa combinação única de forma e conteúdo, como um espírito, e nessa unidade, nesse espírito, é tão invisível quanto a imagem, quanto a pintura, é visível, e é esse espírito que é de fato a imagem", a ser plasmada na obra de arte, e "o que a torna boa é exatamente a combinação de matéria e forma e alma, que se transforma em espírito". Ales busca entender essa imagem, esse espírito, o Deus de cada obra de arte. O trabalho de arte do escritor Jon Fosse está em plasmar a forma disso, por exemplo, cada um dos sete capítulos de HEPTALOGIA começa com "E ENTÃO ME PERCEBO DE PÉ olhando..." e termina com o narrador em estado de oração. Essa repetição em diferença dá o ritmo das quase 700 páginas do livro; essa repetição em diferença, acrescentando informações novas e revisando informações dadas, intensifica a experiência de leitura - o espírito, "porque tanto a Bíblia como a liturgia são ficção e poesia e pintura são literatura e teatro e artes plásticas, e assim todas encerram sua própria verdade, pois é óbvio que a arte contém sua verdade". Ales é narrador onisciente, como o Deus cristão. Ales está cansado do excesso de si, "por isso que me tornei pintor, por ter em mim tantas dessas imagens, tantas que chegam a me torturar", lemos. "Estou tão cansado" é frase que se repete ao longo da narrativa e é nesse estado que Ales pensa. Destaque-se a tradução de Leonardo Pinto Silva, as estruturas lexicais, com exemplos como "traz em si, sim, assim", intensificam a experiência de leitura que HEPTALOGIA é. 

21 dezembro 2025

Dendorí


"Dendorí que dizer 'dentro do orí', palavra iorubá que significa 'cabeça'". A primeira frase do livro de Ricardo Aleixo nos apresenta ao tempo-espaço da leitura proposta, a saber, a escritura da performance de sua "pessoa-muitas" e as pegadas da cabeça do poeta, performador, músico e artista visual. O livro pode ser lido como caderno de anotações, fixação de verbetes, diário de trabalho, profissão de fé no ofício de "zelador da palavra", exposição de sua "forma pessoal de lidar com o signo verbal em sua passagem do silêncio da página para o espaço sonoro-acústico". Nessa exposição, lemos: "Tenho feito o que posso para recuperar [...] esse impulso para 'a liberdade extrema de tudo englobar sem jamais se perder na confusão e no caos'", logo depois de Aleixo citar um trecho de "A escrita de Orfeu", de Marcel Detienne. Há momentos que iluminam o livro todo e faz a gente rever conceitos cristalizados no senso comum do debate sobre poiesis. Por exemplo: "Eu acredito em inspiração. Ao contrário de muita gente que cultiva, dicotomicamente, a ideia de que a inspiração seria uma força, uma energia, algo, enfim, que se opõe ao trabalho, eu penso que muito trabalho significa a abertura de canais criativos tão poderosos que aí surge a inspiração. Nada a ver com o que o senso comum chama de dom, mas com muito treino, muita paciência e a criação da melhor situação possível para que essa abertura perceptiva de fato aconteça". Ao relacionar inspiração a maturação, a trabalho, a treino e paciência, Aleixo reencanta conceitos e práticas, "Diante da pletora de 'técnicos' sem técnica - e sem alma - que as faculdades continuam a despejar no mercado a cada ano". Paralelo a isso, Ricardo faz revisão e exposição de conceitos criativos originais de sua obra, tais como "texto-tambor", "improvox", "vocálea", "corpografia", "vocografia", "poemanto"... "A concentração de beleza ética e estética nessas palavras reforça que "Dentro do orí sempre tem muitas pessoas". No caso, Hélio Oiticica, Lygia Clark, Lygia Pape, Paul Zumthor, Marcel Detienne, Octavio Paz, Muniz Sodré, Décio Pignatari, João Cabral, [...], Elza Soares, Guimarães Rosa, Edimilson de Almeida Pereira, Íris, Américo. Ricardo escreve sobre como a sua "pessoa-muitas" dá "corpo ao poema - e vice-versa". E que beleza ler o verbete "Parentaia" ouvindo a canção "Cuitelinho" na voz de Milton Nascimento. Lançado no final 2025, DENDORÍ é livro que deve ocupar espaço importante na biblioteca de quem trabalha com performance, poesia e outras artes do signo verbal.

28 setembro 2025

À roda de Antônio Vieira

Não é exagero dizer que é impossível estudar as letras coloniais do Brasil sem passar por um ou outro texto da professora Ana Lúcia Machado de Oliveira. “Breves anotações sobre a musa praguejadora da ‘época Gregório de Matos’”, por exemplo, é texto que indico como introdutório e imprescindível sobre o sátiro baiano. (Não sai da bibliografia de meus cursos sobre poesia). Assim como “À roda da eternidade: deslocamentos figurais do Uterus Mariae na sermonística vieiriana”, sobre o “Sermão de Nossa Senhora do Ó”, do padre Antônio Vieira. Os textos da professora equilibram erudição e pedagogia (o desejo de comunicar, partilhar, característico de quem é mestre – não à toa, as salas de aula de Ana Lúcia estão sempre lotadas). Portanto, é de se louvar que, boa parte dos textos que até agora só eram encontrados espalhados por revistas acadêmicas, finalmente, apareça reunida no livro À RODA DE ANTÔNIO VIEIRA. Sem subestimar quem lê, Ana Oliveira comunica temas, conceitos e práticas complexas, principalmente, sobre a instituição retórica. Mas não apenas, também, sobre o Brasil, ou seja, sobre a constituição das letras no Brasil. Por exemplo, como explicar o paradoxo sustentado por Vieira em que “o corpo finito da Virgem pode conter em si o espaço inteiro do mistério e do infinito”? Ana explica, recorrendo ao que há de mais sofisticado na crítica e acessando “uma linguagem cujas sonoridades exprimiam a ideia das ações e das coisas”. “Ao longo da argumentação vieiriana, o O [de Nossa Senhora do Ó] se desdobra em uma floração de figuras circulares, definindo-se sucessivamente como círculo, interjeição, ômega e ômicron, roda, cifra ou número, pronome, partícula apostrofante, ventre fecundado”, escreve a professora, que aponta a estratégia do padre no “desdobramento de imagens circulares e na proliferação do sentido”. Cito apenas uma das várias miradas críticas desenvolvidas nos textos que compõem À RODA DE ANTÔNIO VIEIRA, livro que toda biblioteca de quem se interessa por literatura no Brasil merece e precisa.

24 agosto 2025

Canção e performance em língua inglesa


Quem estuda e pesquisa performance artística sabe da dificuldade de desenvolver interpretações críticas e teóricas a partir de uma linguagem que prima pela não apreensão. A performance existe no seu instante-já, na experiência irreproduzível. Como só podemos lidar com arquivos, seja o livro, seja o áudio, ou o vídeo, o trabalho passa por também restituir o tempo da performance. E isso requer imaginação, sensibilidade, contextualização. Em diálogo com a crítica especializada, notadamente os textos de Ruth Finnegan, os trabalhos apresentados no "Ciclo de conversas sobre performance e canção em língua inglesa" e agora reunidos em textos no livro CANÇÃO E PERFORMANCE EM LÍNGUA INGLESA: primeiro ciclo de conversas, coorganizado por Marcela Santos Brígida e Lucas Leite Borba, versam com originalidade em torno de performances ao vivo de artistas da pop music e imersos na indústria cultural. Temos um notável exercício de recepção e leitura das obras de Beyoncé, BTS, FKA Twigs, Harry Styles, Lorde, Miles Cyrus, Mitski, Paramore, Stormzy, Taylor Swift. Os textos desempenham o exercício raro de restituição da experiência sensorial, ou seja, de “repensar a memorização como forma de aprendizado e de apropriação, opondo-se à ‘decoreba’”. Se no texto “O que vem primeiro: o texto, a música ou a performance?”, Ruth Finnegan anota que “a performance cantada é evanescente, experimental, concreta, emergindo na criação momentânea dos participantes”, essa fricção com o agora, potencializada pela relação de fã presente na base das autorias dos textos do livro CANÇÃO E PERFORMANCE EM LÍNGUA INGLESA: primeiro ciclo de conversas, propõe renovados ares aos estudos na área dos Estudos da Performance e dos Estudos da Canção, exatamente por ter a formação discente como seta e alvo. Não à toa, o trabalho é resultado da disciplina eletiva “Interrogating the Lyrics: from Alex Turner to Taylor Swift”, ministrada pela professora Marcela Santos Brígida, do Instituto de Letras da UERJ. Concordo com o que a professora diz no posfácio, "saber que a universidade pública comporta uma iniciativa como esta eletiva, (...), me traz não apenas alegria, mas também esperança criativa".

17 agosto 2025

Teorias da canção


Em TEORIAS DA CANÇÃO, Marcos Ramos apresenta uma espécie de história concisa da crítica de canção popular brasileira. Como bem diz o subtítulo do livro, lemos "percursos, fundamentos e metodologias - uma introdução" de como a canção popular foi se tornando objetivo de pesquisa e matéria prima para o pensamento crítico do Brasil. Para tanto, o autor faz resenhas expandidas de textos essenciais: "Ensaio sobre a Música Brasileira" (1928), de Mário de Andrade, "Pequena História da Música Popular" (1974), de José Ramos Tinhorão, "Balanço da Bossa e Outras Bossas" (1968), de Augusto de Campos, "O som e o sentido" (1989), de José Miguel Wisnik, "O Cancionista: Composição de Canções no Brasil" (1995), de Luiz Tatit, e "Letras e Letras da MPB" (1988), de Charles Perrone. Ao mesmo tempo em que cita quem deu continuidade crítica a essas abordagens: Oneyda Alvarenga, Heloisa Teixeira, Santuza Cambraia Naves, Cláudia Neiva de Matos, Liv Sovik, entre vários outros nomes. De modo bastante elucidativo, Marcos Ramos aponta o que considera potencialidades e limitações em cada abordagem, sempre ressaltando que muitos dos problemas apontados diz mais sobre o tempo histórico e ao objetivo específico de cada proposta, do que às competências dos autores. Interessante perceber como cada abordagem fricciona na seguinte, dando conta de circundar objeto de análise tão complexo quanto a canção popular. O autor destaca a importância do rigor analítico e da sensibilidade estética de quem se destina à interpretação do amálgama que a canção é e foi sendo interpretada e consolidada pela crítica: "não mais como um texto literário musicado, mas como uma forma estética híbrida e autônoma, cuja expressividade se realiza na confluência de códigos distintos e cuja complexidade exige escuta atenta e aparato crítico plural", escreve o autor. O livro TEORIAS DA CANÇÃO é ótimo material didático para manter sempre à mão.

10 agosto 2025

Será que fui eu?


"Existirmos: a que será que se destina?". Enfrentar a pergunta feita pela canção popular requer coragem e ação. "Hoje estou com 73 anos e esta história começou quando eu tinha 5 anos, em 1935", escreve Alzira Silvéria, autora do livro de memórias SERÁ QUE FUI EU?. Alzira se apresenta como "Uma menina negra, sem pai (porque não o conheci), sem irmãos, de origem muito humilde, mas com muita fé em Deus e muita coragem, que enfrentou a vida confiando que o dia de amanhã seria melhor do que o de hoje". A fé em Deus se traduz na vida em comunidade cristã, espaço de sociabilidade de muitos brasileiros; e a esperança no dia de amanhã se revela na memória do carnaval de rua do Rio de Janeiro e na educação sentimental via Rádio Nacional, bem como no racismo, na exploração. Enquanto narra a própria história, Alzira reflete sobre quem se convence de quem se converte à fé e apresenta um retrato singular de muitas brasileiras: "Devo a Deus e a todas as mulheres negras o apoio, o conforto e o bem-estar que me permitiram sobreviver e criar minha filha, sozinha, em São Paulo", escreve. Essa sinceridade gera uma forte relação de intimidade lírica com quem lê. Nascida em São Lourenço (MG), é da acolhedora Marília (SP), cantada num bonito poema estruturado em redondilhas, que Alzira pergunta e escreve seu livro SERÁ QUE FUI EU?, convidando-nos a, conhecendo sua história, conhecer a de várias mulheres que migram, pelos filhos, em busca de trabalho, de melhores condições de vida, e, assim, inscrevem anonimamente seus nomes na história do país. "Ia do Parque Dom Pedro até a Praça Ramos de Azevedo, com sol, chuva, frio ou calor, e, às vezes, ainda fazia hora extra! Hoje penso: - Será que fui eu?", questiona. Transitando entre a primeira e a terceira pessoa do singular, ou seja, observando-se também enquanto personagem protagonista, Alzira Silvéria, cuja narrativa começa com um sugestivo fabular "Era uma vez", mostra a construção da voz de si, de tantas.