Lendo Canção
Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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12 julho 2026
Rua Cosme Velho 18
Adoro livros que me levam a outros livros, leituras que se desdobram, que viram pesquisa, anotação, texto. Estava lendo "Deus-dará", de Alexandra Lucas Coelho, quando vi a referência a um livro que registra o processo de restauro da mobília da casa onde moraram Joaquim Maria Machado de Assis e Carolina Novaes Machado de Assis: RUA COSME VELHO, 18. O narrador de Alexandra menciona a famosa carta de Joaquim Nabuco a Graça Aranha, em que lemos " (...) Lá se foi o nosso Machado! (...) Eu sou muito contrário à ideia de estátua. A estátua para ser digna dele teria que ser uma grande obra. A melhor ideia, grande demais pra nós, seria comprar a casa e conservar tudo tal qual. Essa é a maior prova de veneração da posteridade. Lembra-se da nossa visita à casa de Voltaire? O pensamento mais delicado desse gênero que eu saiba é o dos Americanos, que em Cambridge compraram o espaço defronte da casa de Longfelow, para conservar intacta a perspectiva que tinha o poeta". A carta de Nabuco revela nosso problema com a guarda da memória de nossas personalidades. Como sabemos, o gracioso chalé foi demolido. Quantos pesquisadores viajam a Europa e mesmo aos EUA e mesmo a outros países latino-americanos para visitar a casa (refúgio, espaço de criação e lugar de vivências) de poetas, escritores cuidadosamente cuidada e (sendo sempre esse o ponto) capitalizada? Pois bem, nem Machado de Assis teve esse "privilégio" entre nós. Mas achei o livro RUA COSME VELHO, 18. É uma delícia imaginar a circulação das pessoas da convivência de Machado e Carolina entre esses objetos, hoje de propriedade da UFRJ, mas em comodato na ABL. "As folhas das árvores, as cadeiras, os livros, os objetos, tudo dava conta de uma comunhão", escreve Alexandra. "O mobiliário machadiano reflete a tendência geral de 'importação do estilo francês'. Era construído no país, com madeira brasileira, por artífices nacionais ou estrangeiros residentes, mas seguindo a influência dos estilos europeus, com inserção apenas de sutis interpretações à maneira brasileira", anotam Luís Anselmo Maciel Filho e Ivan Coelho de Sá. E isso diz tanto do procedimento crítico do "bruxo do Cosme Velho".
05 julho 2026
João Gilberto e a insurreição bossa nova
"Relegada ao fundo do quadro, até por óbvia, já que transita também entre os primais samba e jazz, a ala afro da bossa nova é mandatária, embora nunca tenha sido destacada pelos historiadores. Vale lembrar que os batuques, mitos e rituais africanos vieram importados compulsoriamente nos corpos e almas dos negros escravizados, que aqui aportaram durante mais de três séculos". A anotação de Tárik de Souza dá o tom de um livro que debate a malfadada máxima de que a bossa nova é gênero branco, elitista e zonasulista carioca. JOÃO GILBERTO E A INSURREIÇÃO BOSSA NOVA é a história a contrapelo, uma abordagem crítica escrita por quem experimentou boa parte dos fatos. O conhecimento de Tárik é impressionante. "A bossa ficou tão popular que o pai do brega, o tenor de opereta Vicente Celestino (1894-1968), autor de canhonaços como 'O ébrio' e 'Coração materno' aventurou-se, em 1959, nas planícies de 'Se todos fossem iguais a você', clássico de Tom e Vinicius, lançado na peça 'Orfeu da Conceição'", lemos. No centro do debate está João Gilberto, baiano de Juazeiro. Sobre a pérola "Chega de saudade", "apesar da estrutura tradicional da composição, a gravação lançada em agosto de 1958 por João Gilberto, com sua emissão minimalista, de barítono propositivo mas discreto, levemente anasalada e, andrógina, iria promover uma hecatombe no acomodado mercado da época, e iniciar oficialmente a insurreição bossa nova. Tudo em apenas 1 minuto e 59 segundos", destaca Tárik. Desde a fusão samba e jazz de Johnny Alf, o livro JOÃO GILBERTO E A INSURREIÇÃO BOSSA NOVA evoca, homenageia e dá crédito a toda uma constelação de artistas de várias origens e assinaturas que construíram a mitologia bossanovista enquanto arte de exportação musical brasileira. "Aos que teimam em olhar a bossa nova pelo retrovisor, como peça de museu, a dificuldade de fechar este livro atesta contra. Desde que coloquei o ponto-final, não pararam de pipocar notícias envolvendo o gênero e seus artífices", escreve Tárik no Post Scriptum, deixando o recado de que ainda há muito para ser pesquisado e, quiçá, preconceitos enfrentados.
28 junho 2026
Waly Salomão é uma VOZ ALTA
WALY SALOMÃO É UMA VOZ ALTA é uma delícia de leitura, livro em que José Simão relembra momentos vividos ao lado do amigo. "Waly não morreu, tomou aquele velho navio", lemos na última das muitas anotações de que o livro é composto, como uma "ilha de edição" que a memória é. No fluxo de escrita das notas, Simão erra, se repete, se corrige, como alguém que, sofisticadamente, não se leva a sério, afinal, a vida já é dura o bastante. Notadamente em tempos de ditadura militar. Talvez por isso mesmo, "para Waly o mundo era um teatro, isso ele me comentou várias vezes. E a vida, sonho!". Aos poucos entramos nos bastidores de fatos importantes de nossa contracultura: "Foi no São Carlos que conhecemos Melodia! Ele viu o Melodia tocando violão na porta da casa e disse: 'Olha que preto lindo tocando violão, vamos lá'. Fomos. Melodia tocou 'Black is beautiful'. Que Waly imediatamente trocou o nome para 'Pérola negra'! Uma travesti do Estácio! Que era mais o clima do mundo de Melodia que 'Black is beautiful'! Imediatamente fomos para Ipanema na casa de Gal, Melodia tocou o agora intitulado 'Pérola negra', que Gal incluiu em seu show", lemos sobre o icônico "FA-TAL" (1971), "Gal no palco estava solta, alegre, feliz, cantando 'vejo o Rio de Janeiro', ia de um lado para outro do palco. 'Vejo o Rio de Janeiro'. O público aplaudia em delírio"; sobre a exposição de Hélio Oiticica na Whitechapel Gallery, "ficávamos encostados na parede rindo do estranhamento dos ingleses pisando na areia, se perdendo nos penetráveis. A 'Tropicália'"; e Waly "lia o dicionário! Numa poltrona vermelha. Eu chegava logo cedo e lá estava ele na poltrona vermelha, lendo o dicionário. E achou a palavra algaravia! Que imediatamente virou título de um poema", lemos - "tínhamos ódio dos militares. Falávamos em iorubá, como as travestis, que usam como proteção. Quando a polícia aparecia, Waly dizia: 'Lá vem os alibã'. Alibã é polícia, neca é pau, ocó é bofe, boy. Edi é bunda. E odara é odara, é Caetano". E essa era a turma e a linguagem de imediatismo e urgência. "Lembrar é foda! Lembrar é fluido. Lembrar escapa", escreve José, logo depois de anotar que "Todo esse livro sobre minha amizade de quarenta anos com Waly Salomão é baseado em lembranças, tipo Guimarães Rosa: lembra-anças!". WALY SALOMÃO É UMA VOZ ALTA é livro leve sobre a experiência da barra pesada; é livro que convida à risada e à emoção na mesma medida, como na medida certa se desenvolveu a amizade entre Simão e Salomão, José e Waly.
21 junho 2026
O losango negro
"O não conformismo implica não apenas na reação, mas a ação. E é nesta ação que está a responsabilidade pública do intelectual", disse Mário de Andrade, intelectual da ação em muitas frentes, como mostra Angela Teodoro Grillo, para quem "o losango negro, como uma encruzilhada, oferece percursos para a interpretação na obra artística, ensaística e na práxis do 'bardo mestiço'". Em O LOSANGO NEGRO, Angela estuda a imagem geométrica arlequinal para condensar aspecto pouco observado na obra de Mário. "Nesse losango, há tanto a consciência da mestiçagem do indivíduo e de reconhecimento de violências do racismo, como a valorização da cultura negra brasileira", lemos. Essa valorização aparece de modo contundente no conjunto de poemas que a professora analisa. "As mãos do biógrafo confundem-se com as do pintor personagem que transgredira a representação cristã de anjinhos barrocos, escurecendo-os a pele, como forma de se vingar do racismo" e "Nas memórias de infância, o menino 'moreno' encontrava a si mesmo nas pinturas de Jesuíno", escreve Angela ao analisar comparativamente a biografia "Padre Jesuíno do Monte Carmelo" e o poema "Reconhecimento de Nêmesis". O crítico de arte e o poeta se misturam, ou, se refratam, pois Mário entendeu que interpretar o Brasil era interpretar a si mesmo: "Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta"! "Nesses textos, porém, o autor propõe o devir artístico como meio de superação da condição do oprimido; pela arte, e a possibilidade de interpretações polissêmicas, o considerado subalterno conquista autonomia e liberdade para falar e também negar imposições", escreve Angela. O LOSANGO NEGRO destaca também a influência da canção popular e do jazz no pensamento de Mário, bem como a representação da mulher negra nos poemas. A propósito, o capítulo sobre "Poemas da negra" deve ser leitura fundamental nos cursos de poesia. Mário rasura e reescreve o cânone. "Ao anunciar a temporalidade do amor por Maria, realizar o encontro erótico com a Amiga e eleger como musa maior a Negra, Mário de Andrade rompe com a tradição poética amorosa que conhece bem, como mostra sua biblioteca", lemos. Angela apresenta sua leitura a partir de mergulho profundo nos arquivos do escritor - boa parte disponível no volume do livro. O LOSANGO NEGRO é trabalho de revisão crítica e defende que "O reconhecimento da mestiçagem para Mário de Andrade não é tomado de forma acrítica, como mera propaganda do Estado Novo, ao contrário, o escritor a entende como fato inexorável da formação do Brasil, com consequências mais ou menos violentas a depender do tom da pele e da classe social".
14 junho 2026
Os imortais
Filha de Mnemósine, a Musa conserva o acontecimento que presenciou, transmitindo essa "memória" ao poeta, que, por sua vez, traduz o canto musal para os homens comuns. É nessa tradução que a invenção poética, animada de imaginação, ocorre. Logo, não é a toa que Paulliny Tort invoca a Musa para narrar a jornada de um clã de neandertais em busca de sobrevivência no livro OS IMORTAIS. Tort picota os versos do Canto I da "Eneida" de Virgílio e usa os cacos das palavras em latim para intitular os fragmentos da narrativa. "Musa, mihi causas memora, quo numine laeso / quidve dolens regina deum tot volvere casus / insignem pietate virum, tot adire labores / impulerit. tantaene animis caelestibus irae?" ["Musa! recorda-me as causas da guerra, a deidade agravada; / por qual ofensa a rainha dos deuses levou um guerreiro / tão religioso a enfrentar sem descanso esses duros trabalhos? / Cabe tão fero rancor no imo peito dos deuses eternos?", trad. Carlos Alberto Nunes] é o mote que Paulliny glosa com precisão e liberdade imaginativa. Em OS IMORTAIS a voz musal, tendo estado nos fatos, traduz o interior humano das personagens, "qual animais lanosos e muito lentos", que atravessam uma natureza de clima inóspito. O livro é dividido em quatro partes, como quatro são as estações climáticas, ou as fases da lua, porém, "as estações não seguem regularidade alguma, então precisam estar preparados para tudo". O que chamo de "interior humano" aparece em vários momentos, por exemplo, enquanto o Homem pensa "se os estrangeiros entendessem que não precisam se matar por algo que é suficiente para todos, se o clã também se empenhasse nisso, mas ninguém parece considerar essa possibilidade"; quando a voz narrativa anota "quem dera pudessem se aproximar, partilhar daquele espaço, quem dera pudessem conviver, mas é impensável, impossível, sobretudo agora que já morreram e já mataram"; quando a Mulher se inibe, "porque é desconcertante comer diante dos que têm fome", pois "a fome é um transe"; e quando a menina descobre o destino do Homem (e os versos de Virgílio pulsam sentido). A escolha vocabular de Tort parece querer dar dignidade a sujeitos de poucas palavras e muitos gestos - "não só a perna, mas a voz dele manca". Em alguma medida, OS IMORTAIS nos lembra que as mudanças climáticas de agora, 2026, refletem as tempestades internas do humano (demasiado humano). E, se o futuro é ancestral, o diagnóstico apresentado, porque terrível, reinstaura o desafio, "porque a diferença entre a catástrofe e a diversão frequentemente é apenas uma questão de perspectiva".
07 junho 2026
Saídas da poesia
É sempre bom quando um autor que a gente admira e acompanha o desenvolvimento da reflexão crítica reúne textos publicados em lugares diversos num único volume. É o caso de SAÍDAS DA POESIA - DA CONTRAPOESIA ÀS POÉTICAS DA RESPOSTA, de Marcos Siscar. Os textos já lidos e agora relidos em conjunto ganham nova entrada. Leitor de Haroldo de Campos, por sua vez, leitor de Mallarmé, Siscar anota que "Uma possível história da poesia moderna seria a história da leitura de Mallarmé, no sentido de que cada poeta, cada tendência crítica, cada época, tem a sua maneira de ler Mallarmé e de atribuir sentido à poesia, como um todo, a partir daí". Isso faz todo sentido na perspectiva das "poéticas da resposta" e da "poesia em estado crítico", eixos crítico-temáticos que unem os textos do livro. Como o debate sobre forma me interessa, trechos em que o autor escreve "De Cabral a Ana Cristina Cesar, temos dois universos bem distintos de referência e de pensamento; mas, entre marxismo e filosofia, marxismo e psicanálise, marxismo e feminismo, não creio que seja o caso de estabelecer antagonismos e hierarquias, especular sobre superações ou retrocessos" se destacam. Ele completa: "O que me interessa no caso é que, tanto em Cabral quanto em Ana Cristina Cesar, vemos esforços de constituir uma relação crítica com a realidade, na busca não simplesmente de um lugar 'para' a poesia, mas de um lugar 'de' poesia, no qual a poesia seja performance de um modo de 'ter lugar'". Sempre presente no pensamento de Siscar, o tópico da crise (ideal e social) retorna, mas agora sob novas perspectivas, notadamente, do endereçamento. "Assumir o endereçamento como problema relevante dos estudos literários tem implicações que são tanto poéticas quanto críticas. A poética da resposta evidencia uma tomada de partido decisiva pelo real, mobiliza pela 'alteridade' do real. Ela requer, além disso, uma responsabilidade crítica que não se reduz à isenção, mas que também não dispensa o exercício do rigor". E esse exercício do rigor não falta ao professor, quando escreve sobre Caetano Veloso enquanto 'tradutor' vocal de Donne, reverberando Ana Cristina Cesar; ou quando anota que "O poema em prosa talvez seja o caso mais evidente e mais célebre de porosidade entre prosa e poesia, seja ele concebido como procedimento criativo, seja interpretado como passo histórico na direção da 'prosa'".
31 maio 2026
Por uma crítica feminista
Difícil destacar um livro da vasta e importante obra da professora Eurídice Figueiredo, todos tratando de temas como ditadura, exílio, arquivo, feminismo. São textos que equilibram sensibilidade e rigor, empenho pessoal e exigência coletiva. O enfrentamento contra autoritarismos de qualquer ordem se espraia na mirada crítica. "Como o poder está em toda parte, provém de todos os lugares, ele tem a capacidade de ser permanente e de se autorreproduzir", lemos em POR UMA CRÍTICA FEMINISTA: LEITURAS TRANSVERSAIS DE ESCRITORAS BRASILEIRAS, livro em que Beauvoir, Butler, Cixous e outras pensadoras são lidas sem a adequação apressada com que comumente lemos autores "estrangeiros". Ao contrário, Eurídice confronta, expande, dialoga com firmeza e afeto. "O fato de todos fazerem parte do mesmo sistema em que se exerce o poder não impede que haja resistência. Há resistências no plural, que integram o mesmo sistema, elas são a outra face das relações de poder. Assim como a rede das relações de poder forma uma capa que atravessa os aparelhos e as instituições, os pontos de resistência atravessam igualmente as estratificações sociais e as unidades individuais", lemos mais adiante. Daí a centralidade que a professora dá às mulheres que escrevem num sistema todo montado para impedir esse gesto, essa presença. Escrever é resistir; pensar é resistir; e a escrita arquiva, mantem a memória viva e a tensão promotora da mudança social. POR UMA CRÍTICA FEMINISTA passa em revista ideias e conceitos elaborados ao longo do tempo, reelabora a resistência feminista e se apresenta como uma vibrante história da nossa literatura - de Maria Firmina dos Reis a Maria Valéria Rezende, passando por Júlia Lopes de Almeida, Patrícia Galvão, Eliana Alves Cruz, Amara Moira. "O que se depreende do estado da arte através da leitura desses mais de duzentos livros é que as mulheres deixam de ser faladas pelos autores e passam a falar à sua maneira, expressando ansiedades e expectativas, tensões e conflitos familiares, relações abusivas, medo, vergonha e raiva, mas também afeto, amor e amizade", escreve Eurídice Figueiredo, autora cujo trabalho amplia o coro dissonante e, consequentemente, desafiador das mulheres lidas e de quem a professora é reflexo e refração. Afinal, conforme anota, "as identidades só se constroem na relação com o outro".
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