Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
29 dezembro 2024
Mutações do sensível
MUTAÇÕES DO SENSÍVEL é um de meus livros de cabeceira, ou seja, não sai da mesa de trabalho. Aqui o professor Paulo Tarso Cabral de Medeiros apresenta e defende interpretações em torno das questões de rock, rebeldia e mpb no contexto pós-1968, quando a canção popular precisava driblar a censura da ditadura militar com inventividade, oclusão proposital da metáfora e pulsão de vida; quando o cantor de rádio incorporou o ethos de poeta; quando "o lixo da sociedade industrial era o luxo santificado pelos hippies". Foi em MUTAÇÕES DO SENSÍVEL que li pela primeira vez o diagnóstico feito por Allen Ginsberg: “a poesia no sentido tradicional acabou. Ninguém se senta mais na poltrona da sala de estar para ler. O Rock é a nova poesia, com os Beatles de 'I am a Walrus' e as letras de Bob Dylan. É um retorno à poesia dos valores menestréis". As interpretações ensaísticas de Paulo estão calcadas em pesquisa, leitura e crítica de quem ouve com ouvidos abertos a produção musical da contracultura brasileira de Milton Nascimento, Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso. "O ser do poeta liga-se tenuamente aos próprios adjuntos, no colo mesmo da indeterminação. Por isto, lugar e tempo são distribuídos segundo o arbítrio e as livres-associações que o inconsciente - libertado da linearidade e da máscara do ego - deixa corporificar", lemos a certa altura do livro. Nesse contexto, o palco é extensão da vida, da rua, “lugar de festa, símbolo de contestação e templo de oração, investigação e autoconhecimento”, escreve o professor. Essa sensibilidade nova, “este conjunto de lutas, da qual a canção que aglutina os motes da contracultura participa, obteve impulso criador suficiente para motivar o homem urbano e ocidental a reincetar novas viagens, reavaliar formas de luta e inventar um jeito novo e mais contemporâneo de tratar as questões urgentes, incorporando o deslizamento do solo contemporâneo – que assim deixa de estarrecer e petrificar-se numa tradição”. Isso move artistas e o autor de MUTAÇÕES DO SENSÍVEL.
22 dezembro 2024
Etnopoesia
"Por que os trabalhos científicos têm de ser mais completos que o assunto de que tratam?". Essa pergunta feita por Hubert Fichte deveria inquietar todos nós das Humanidades. Em ETNOPOESIA, Hubert Fichte apresenta uma proposta antropológica de força poética, com ênfase da década de 1970. Seu foco recai sobre o amalgama das religiões afro-americanas e sobre a crítica ao poder colonial presente na produção científica. Ao articular literatura e vivência, Fichte constrói uma escrita híbrida entre poesia e testemunho, que busca dar visibilidade às vozes marginalizadas e à diversidade cultural, ao mesmo tempo em que problematiza as relações de poder entre centro e periferia. "A linguagem poética, ao contrário da linguagem tática da propaganda e da política, se renova no instante em que se configura como enunciado, juntamente com o objetivo desse mesmo enunciado", lemos. Ritmo fragmentário e o tom constelar fazem de ETNOPOESIA um livro de epifanias, aforismos, declarações de Direitos, em que a voz poemática não se delimita em gênero e sexo. Rotular-se é entregar-se ao sistema. Livre, essa voz experimenta o mundo, vive. ETNOPOESIA é "verbalização do mundo. / Magia e tragédia. / Fórmula mágica e literatura". Me comove ler no finalzinho do livro que "A frota de Xerxes capturou uma embarcação de Trezena. Os persas aprisionaram um grego, mataram-no na proa e acharam de bom augúrio o primeiro dos gregos também ser o mais belo. O homem sacrificado se chamava Leo. 'Talvez tenha atraído para si tal sorte devido a seu nome'. Heródoto atribui o destino ao nome. Leão e sacrifício do leão na África. Homem-leão e um resquício de magia no texto do primeiro escritor moderno".
15 dezembro 2024
Água viva
Releio ÁGUA VIVA pelo menos uma vez por ano. Por força do ofício docente e porque a cada leitura apreendo novas iluminações. São muitas entradas, bandeiras, trincheiras a enfrentar. É um livro difícil de ser resumido; é uma aventura da linguagem e da língua. É pura improvisação, é pré-regramento institucional, é voz insubmissa. "Vamos não morrer como desafio?", provoca essa voz. "O que te escrevo é um 'isto'. Não vai parar: continua", lemos pouco depois. ÁGUA VIVA já teve trechos oralizados por Maria Bethânia e musicalizados por Ava Rocha. "Cada instante é / a impressão é que estou por nascer / sou um coração batendo no mundo", canta Ava, escandindo as palavras, passionalizando as vogais, a fim de figurativizar a persona tateante da voz narrativa. São muitos os trechos que servem facilmente como aforismos: "O futuro é para a frente e para trás e para os lados. O futuro é o que sempre existiu e sempre existirá. Mesmo que seja abolido o Tempo? O que estou te escrevendo não é para se ler - é para se ser", lemos, no desejo de sermos. São as incertezas, promotoras do improviso - "Que febre: não consigo parar de viver" -, o que talvez mais aproxima quem lê à voz narrativa de ÁGUA VIVA. "O que estraga a felicidade é o medo", lemos e somos intimados a ter coragem ética e estética, como a voz narrativa tem.
08 dezembro 2024
It's a long way: o exílio em Caetano Veloso
IT’S A LONG WAY: O EXÍLIO EM CAETANO VELOSO é livro que traduz os procedimentos usados pelo tropicalista cantor da “Alegria, alegria” nacional para verter em canção um dos momentos mais trágicos do Brasil, seja no plano individual, seja na projeção coletiva. Isso não é pouco! Tratando de tema tão delicado, há o risco de cair no psicologismo que interdita a leitura crítica. Longe disso, com trabalho de pesquisa irretocável, Márcia Fráguas ilumina o tema para quem queira pensar a obra de Caetano e o estado de coisas do país sob o regime militar (essa sombra que não deixa de nos assombrar). Márcia ensaia com e demonstra como o trauma anima as vozes das canções de três discos – 1969, 1971 e 1972. A autora demonstra que a ambiguidade dos afetos, a competência com que o cancionista escapa das vias normatizadas e o desejo de viver à deriva são dispositivos estéticos e biografemas indispensáveis para a compreensão da obra desse intérprete do Brasil. A autora acessa a maneira singular de sujeitos cancionais dizerem em inglês “From the stern to the bow / Oh, my boat is empty / Yes, my heart is empty / From the role to the low”, “I’m lost in my old own green light”, “I’m as sure of the past as / I’m certain about tomorrow”, “alone in that same night / I cried and cried again; e maneja uma constelação de significantes a fim de reapresentar com olhos e ouvidos livres as metáforas náuticas e os temas noturnos dos três discos. É função da crítica reapresenta como novidade aquilo para o qual estamos surdos de tanto ouvir. Ao final da leitura do livro de Márcia Fráguas fica evidente que não podemos mais escutar esses discos do mesmo modo.
01 dezembro 2024
Um defeito de cor
Sem dúvidas, UM DEFEITO DE COR é livro que inaugura as letras do século XXI. Lido comparativamente a "Macunaíma", inaugurador do século passado, o livro de Ana Maria Gonçalves autorrepresenta (do eu) muito daquilo que no livro de Mário de Andrade ainda é representação (do outro). Embaralhando arquivo e ficção, ou ficcionalizando arquivos (de história, sociologia, antropologia), o livro narrado em primeira pessoa apresenta a jornada trágica e insubmissa de Kehinde - personagem tão complexa quanto a trama de sua existência. Fugas e imersões fazem Kehinde concentrar em si a elocução de muitas mulheres negras mães, que tiveram seus filhos sequestrados pelo estado de situações que o Brasil lhes impõe. O título do livro é cirúrgico e aparece em trechos como "Com a influência do padre Notório, ela logo conseguiria para ele uma dispensa do defeito de cor, que não permitia que os pretos, pardos e mulatos exercessem qualquer cargo importante na religião, no governo ou na política"; ou "Eu achava que era só no Brasil que os pretos tinham que pedir dispensa do defeito de cor para serem padres, mas vi que não, que em África também era assim", diz Kehinde quando de seu retorno ao continente de onde foi sequestrada. A cultura de Angola aparece na festa da Kianda, "sereia encantada das terras dos angolas" - "Para os angolas, a Kianda é o mesmo que a Iemanjá para os nagôs, e eles também têm uma sereia de rios e lagos chamada Kituta, bem parecida com a minha Oxum", dita Kehinde, dando conta da rede de significantes trazidos pelos escravizados para o Brasil. É tocante, e nisso está o engenho de Ana Maria Gonçalves, ir percebendo aos poucos que o livro é ditado oralmente pela personagem já idosa, e que Kehinde nunca perdeu o desejo de reencontro com o filho. UM DEFEITO DE COR é uma carta de amor, uma carta denúncia, uma carta que repara e expande nossa consciência nacional.
24 novembro 2024
Balanço da bossa e outras bossas
Um dos maiores poetas do século XX (e XXI), Augusto de Campos foi um dos primeiros a identificar "o passo a frente de Caetano Veloso e Gilberto Gil", por exemplo. BALANÇO DA BOSSA E OUTRAS BOSSAS guarda textos e entrevistas gestados no ápice das mudanças radicais sofridas pela canção popular entre 1950 e 1970, sem deixar de fazer o balanço de antecessores como Lupicínio Rodrigues. "Enquanto outros compositores de música popular buscam e rebuscam a letra, Lupicínio ataca de mãos nuas, com todos os clichês da nossa língua, e chega ao insólito pelo repelido, à informação nova pela redundância, deslocada do seu contexto", escreve Augusto. Textos como "Boa palavra sobre a música popular", "Informação e redundância na música popular", "Música popular e vanguarda", são incontornáveis. Lemos que "Para que haja informação estética, deve haver sempre alguma ruptura com o código apriorístico do ouvinte, ou, pelo menos, um alargamento imprevisto do repertório desse código". Mas merece destaque o poema que Augusto escreve em resposta à morte de Torquato Neto. O poema "Como é Torquato" biografa criticamente o autor de "Geleia geral" (com Gilberto Gil), incorporando o ethos de Torquato como método e como linguagem. Augusto espacializa as palavras na página sugerindo um partitura, uma forma de vocalização do texto. Isso é crítica criativa! E BALANÇO DA BOSSA E OUTRAS BOSSAS é crítica em alta potência, feita por um poeta, tradução, ensaísta que defende "Ao invés do nacionalismo tacanho e autocomplacente, um nacionalismo crítico e antropofágico, aberto a todas as nacionalidades deglutidor-redutor das mais novas linguagens da tecnologia moderna", como ele mesmo diagnosticou ser a obra dos tropicalistas. Em certa medida, esses textos de Augusto de Campos "autorizou" a canção enquanto objeto de reflexão.
17 novembro 2024
Mallarmé
Jacques Rancière é um dos críticos contemporâneos que muito admiro. Sua escrita demonstra desejo de contato com quem ler, seja pela generosidade das referências, seja pela sensibilidade amiga, seja pela linguagem cúmplice de quem lê. Por isso, é uma lástima que o seu ensaio MALLARMÉ ainda não tenha tradução para o Brasil. Aqui Rancière desenvolve sua "política da sereia" e apresenta Mallarmé não como um elitista, mas como um poeta intensamente implicado nas tensões políticas de sua época. "Mallarmé no es un autor hermético, es un autor difícil. Difícil es todo autor que dispone las palabras de su pensamiento de tal manera que ellas rompen el círculo ordinario de lo banal y lo oculto, que constituye lo que Mallarmé llama 'el reporte universal'. En este sentido, de diferentes formas, todo autor interesante es difícil", lemos na tradução em língua castelhana de Cristóbal Durán, Verónica González e Carolina Matamala. Para o autor, Mallarmé responde à crise da República Francesa ao atribuir à poesia uma função cívica singular e incontornável. A política não aparece como tema explícito, mas como operação estética; exigindo a mudança de quem lê, a poesia cria novas formas de visibilidade, percepção e partilha do sensível - temas caro a Rancière, autor interessado na "experiencia radical del lenguaje y del pensamiento". Assim, a propagada "crise de/do verso" reverbera a "crise ideológica" e a "crise social" do contexto histórico e "el poema también debe estrecharse o alargarse para desempeñar en esa complejidad del tempo el rol que le corresponde". Para Mallarmé, o problema político é um problema literário, e vice-versa. Urge a tradução brasileira de MALLARMÉ, livro que, alinhado com a visão de Marcel Broodthaers, sugere que Mallarmé rompeu com a representação clássica, transformando a página em uma coreografia de ideias, partitura de palavras-sons-e-silêncios.
10 novembro 2024
Pequena história da música popular
O conservadorismo ranzinza de José Ramos Tinhorão, calcado em afirmações e defesas de certas matrizes brasileiras ao longo da vida, colocam o jornalista, crítico, ensaísta, pesquisador e historiador num lugar sempre incômodo no debate contemporâneo em torno da canção popular brasileira. Mas, como todo bom pesquisador, Tinhorão era arquivista e sua coleção guarda joias impensáveis, agora sob a guarda do Instituto Moreira Salles. Fato é que, defensor de um Brasil não contaminado pela indústria cultural, Tinhorão viveu mudanças profundas na lírica cancional brasileira e conviveu com muitos de seus atores. PEQUENA HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR dá conta de registrar essa jornada. O livro começa afirmando que "Por oposição è música folclórica (de autor desconhecido, transmitida oralmente de geração a geração), a música popular (composta por autores conhecidos e divulgada por meios gráficos, como as partituras, ou através da gravação de discos, fitas, filmes ou vídeo-teipes) constitui uma criação contemporânea do aparecimento de cidades com um certo grau de diversidade social". E isso diz muito sobre o modo como Tinhorão interpreta a modinha, o lundu, o maxixe, o choro, o samba, o frevo, o baião, a bossa nova, a canção dos festivais, o tropicalismo, etc. Sua leitura sociológica e avessa aos experimentalismos artísticos se atenta aos cancionistas e ao mercado 'alienante', porque despolitizado. Tinhorão destaca, por exemplo, "o espírito de arrivismo de provincianos migrados para o sul dispostos à realização pessoal e ao sucesso" dos baianos tropicalistas. Ao seu modo, Tinhorão aponta como os miasmas coloniais do Brasil reverberam na canção popular mediatizada. Eu diria que em hoje em dia, com tantos desdobramentos do complexo Brasil que a Tropicália engendrou, PEQUENA HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR é uma leitura desafiadora, mas importante.
03 novembro 2024
Crônicas e outros escritos de Tarsila do Amaral
O livro CRÔNICAS E OUTROS ESCRITOS DE TARSILA DO AMARAL é uma leitura de intenso prazer. Seja porque entramos em contato com uma Tarsila pouco conhecida, a escritora, seja porque acessamos o 'tempo' da artista plástica mais importante de sua época, orientadora do século XX. Também em textos, Tarsila revela um rigor crítico invejável. Publicados em jornais de São Paulo e Rio de Janeiro entre 1936 e 1956, os textos tratam e versam (sim, há poemas) sobre os mais diversos temas. Com pesquisa e organização de Laura Taddei Brandini o volume lança luz, portanto, ao pensamento de Tarsila. "A linguagem, como expressão genérica para a manifestação dos fenômenos que se passam no mundo interior, não constitui privilégio do homem. (...) O homem (...) possui a expressão máxima do pensamento - a linguagem oral, a voz articulada, a palavra", lemos em texto de 1937. A amizade com o autor de "Macunaíma" é registrada num elogio rasgado: "Em todos os tempos de sua vida literária, poucos homens de letras terá possuído o Brasil tão completos quanto Mário de Andrade" (1941). Comentando a famosa conferência de 1942, em que Mário revisa os ideais e desdobramentos da Semana-de-1922, Tarsila tenta acalmar o amigo atormentado, escrevendo que "Tudo quanto artistas e literatos produziram naquele tempo poderia ter sido melhor, mas a verdade é que não estavam preparados para encarar a vida com o espírito de hoje. A sensibilidade, o caráter e a inteligência também amadurecem, não se podendo nesse caso abstrair o fator tempo". A autora entusiasmada com a leitura de "Odisseia" é uma delícia: "Que ingenuidade encantadora, que enredo fantástico! Minha vontade, ao sair de casa, era voltar logo e correr para a Ítaca cercada de ondas; queria ouvir os discursos da sempre jovem e linda Penélope ou do seu ilustre e prudente filho, Telêmaco, ambos derramando abundantes lágrimas pelo divino Ulisses desaparecido". CRÔNICAS E OUTROS ESCRITOS DE TARSILA DO AMARAL é livro para ser lido aos poucos, distraidamente, eu diria, para, surpreendentemente, reconhecer Tarsila.
27 outubro 2024
Vozes plurais
Em 2014, eu tinha acabado de entregar a tese de doutorado à banca, quando chegou à minha mão o livro VOZES PLURAIS, de Adriana Cavarero. Senti um misto de frustração e alegria, pois muito do que eu estava pensando sobre a revocalização do logos, via cancioneiro nacional, a filósofa italiana elaborara muito melhor, via revisão crítica da filosofia ocidental. Sem dúvidas, a tese teria outros encaminhamentos, caso essa leitura tivesse sido feita antes. Cavarero sacode a poeira do tempo sobre conceitos e preconceitos fundados desde Platão. "O processo de descarte da voz se conclui já em Aristóteles, que define a linguagem em função de sua capacidade semântica e que estabelece o limite entre homem e animal exatamente pelo fato de o primeiro possuir linguagem (phoné semantiké), enquanto ao outro restaria apenas voz (phoné) sem poder de significação, mera sinalizadora de afecções", escreve o tradutor Flavio Terrigno Barbeitas. De fato, Cavarero embaralha essas instâncias, analisando mitologias desde Jacó, Funes, Íon, Calvino, Musas, Sereias, Cixous, Kristeva, Arendt, em busca de uma "política das vozes", da unicidade, da revocalização do logos. Sendo isso o que mais me interessava à época. E ainda agora. "Indomesticável, a voz feminina do canto abala o sistema da razão e nos arrasta 'para outro lugar'. Potencialmente mortal e veículo para 'outro mundo', ela leva o prazer ao limite do suportável", escreve Cavarero. Por essas e outras miradas, VOZES PLURAIS é livro que não sai de minhas referências bibliográficas.
20 outubro 2024
Educação nos terreiros
Se eu pudesse indicar um livro aos meus colegas professores, especialmente aos de ensino fundamental, e que este livro entrasse como leitura fundamental nas grades curriculares, indicaria EDUCAÇÃO NOS TERREIROS. Aqui a professora Stela Guedes Caputo escreve sobre como a escola se relaciona com crianças do candomblé, consequentemente, com questões raciais. Não bastassem a excelência da pesquisa e a qualidade do texto, a autora trata de um tema urgente às questões de tolerância religiosa no Brasil. Lemos numa das orelhas do livro: "Senti o preconceito desde muito cedo. Aos 6 anos de idade vi ser publicada uma foto minha numa matéria da 'Folha Universal' intitulada 'Os netos do demônio'. O efeito desta matéria foi arrasador. Me senti excluído por muitos amigos no colégio onde estudava, e essa é uma fase da infância que até hoje procuro esquecer", escreveu Ricardo Nery. Essa e outras histórias são apresentadas e analisadas com sensibilidade e crítica socioeducativa. A autoestima das crianças também é tema do livro EDUCAÇÃO NOS TERREIROS, diante das discriminações que levam a rejeição da religião de matriz africana. O diagnóstico é duro, haja vista a expansão do domínio político neopentecostal. Stela Guedes Caputo promove reflexões importantes sobre educação antirracista.
13 outubro 2024
A primeira pedra
Pedro Machado abre A PRIMEIRA PEDRA com epígrafes que dão o tom e o ritmo das narrativas do livro. O trecho do Evangelho de João em que Jesus diz “aquele de vocês que nunca pecou atire a primeira pedra”, o poema de Cruz e Sousa em que o eu-lírico assume a voz de Jesus e diz ao destinatário “sei que cruz infernal prendeu-te os braços” e o trecho de texto de João do Rio em que se lê sobre um pastor que “sonhava com o domínio temporal e a Câmara dos Deputados” são os motes trabalhados por Pedro ao longo de 14 narrativas. Essa consciência no uso das epígrafes é fundamental, por exemplo, para entender as pedreiras que os personagens precisam quebrar para ser e estar no mundo, pois serve de dispositivos para leituras de textos cujos títulos são “Jesus Negro”, “Vó Benedita”, “Jerusalém Desolada”, “Todos contra Sara”, “Pele Sagrada”. Se os contos podem ser lidos no modo aleatório, a sequência montada pelo autor cria uma narrativa em que uma história insemina a seguinte e faz com que a “pedra” do título do livro seja a protagonista. As personagens de Pedro Machado têm como emblema o humano cotidiano de quem faz do morro carioca o monte Sião. O ethos religioso é o tempo e o espaço por onde os personagens negros evangélicos e ex-evangélicos transitam. Do primeiro conto ao derradeiro diálogo do livro há um coro de vozes dissonantes cantando a dificuldade e a glória de estar vivo. Jeferson, Josué, Jeremias, Jonas, Davi, Josias, Salomão são homens-de-fé apresentados por Pedro Machado sem o véu do exotismo e do voyeurismo que por tanto tempo ainda encobre corpos e subjetividades negros obrigadas a “disciplinar sua alma à força”.
06 outubro 2024
Retorno a Reims
Autor do importante livro "Reflexões sobre a questão gay", em RETORNO A REIMS Didier Eribon expõe o périplo - a transformação da vergonha em orgulho - que fez do menino filho de operário um dos intelectuais mais respeitados em sua área. Gay e trotskista de formação, Eribon passa em revista todas as contradições internas dessa tensão. Observando o que fez a "esquerda deixar de ser esquerda", ou seja, o aburguesamento da classe operária (e classe é o mote do livro, ao lado da sexualidade), ele escreve: "devo confessar que o marxismo a que aderi durante meus anos de estudo, assim como meu engajamento esquerdista, não eram talvez mais do que uma maneira de idealizar a classe operária". E, mais adiante: "Raramente se fala dos meios operários, mas, quando se fala, é em geral porque se saiu deles e se está feliz de deles se ter saído, ele é reinstalado na ilegitimidade social daqueles sobre quem se fala no momento em que se deseja falar deles, precisamente para denunciar - mas com uma distância crítica necessária, e portanto com um olhar avaliador e ajuizador - a posição de ilegitimidade social à qual eles são incansavelmente remetidos". Eribon fala da França, mas poderia estar falando de Brasil. RETORNO A REIMS nos lembra que, sim, classe determina quem pode ter acesso ou não aquilo que a cultura determina como "desejo". "Eles desejavam ardentemente possuir todos os bens de consumo do momento", escreve sobre os pais; "a pretexto de renovar o pensamento de esquerda, trabalhavam para apagar tudo o que fazia da esquerda a esquerda", escreve sobre notários intelectuais neoconservadores. A autocrítica atravessa o livro, Didier Eribon revela os métodos de seu autoaburguesamento, método replicado, por exemplo, por Édouard Louis. E propõe: "A tarefa que cabe aos movimentos sociais e aos intelectuais críticos é portanto: construir cenários teóricos e modos de percepção políticos da realidade que permitam, não eliminar - tarefa impossível -, mas neutralizar o máximo possível as paixões negativas operantes no corpo social e especialmente nas classes populares; oferecer outras perspectivas e assim esboçar um futuro para aqueles que poderiam se designar, novamente, de esquerda". Se é impossível retornar, é urgente refundar(-se).
29 setembro 2024
Efrain Almeida
A obra de Efrain Almeida comove desde o primeiro contato. O lirismo de suas esculturas remete-nos a uma quietude anterior à civilização (à destruição do "natural") e a um universo mitológico irrestituíveis. Suas peças são ex-votos à natureza das coisas e do ser - sejam os passarinhos e insetos que parecem empalhados espalhados no chão cru de uma galeria, sejam os colibris cujo voo estaciona porque o bico está preso. Esse lirismo evoca o interior de um Brasil tropical e desértico, vasto, preservado na memória de quem experimentou o lugar geográfico chamado Norte-Nordeste. A artesania irreprodutível das autoesculturas do artista, que de tão mínimas lembram o tamanho do Homem diante da imensidão da existência coletiva, traduz os biografemas relacionados ao corpo, à sexualidade e à religião de quem habitou esse lugar. "Sobre o lado ímpar da memória / o anjo da guarda esqueceu / perguntas que não se respondem", escreveu João Cabral. Por isso, não há saudosismo nem desejo ingênuo de restituição, mas sim gesto contundente com foco no silêncio preso nas gargantas ruidosas na modernidade. "Assentados de modo esparso sobre paredes amplas, bases largas ou folhas brancas, esses trabalhos têm o tamanho do que a mão acolhe e solicitam a aproximação do olho para serem vistos. Voltados para o espectador em busca de cumplicidade, parecem entregar sempre algo - ou a si mesmos - em oferenda, assumindo um tom confessional e sedutor que confunde - de modo medido e insinuado, mas insistente - religiosidade e erotismo", escreve Moacir dos Anjos no texto monográfico que compõe o livro EFRAIN ALMEIDA lançado pela Cobogó em 2010 com imagens dessa obra até aquele momento. E Efrain continuou criando e inventando até 2024. Ocupando galerias, bienais, feiras e demais espaços do mercado de arte, as peças (os pedaços) de Efrain Almeida focam na vigília daquilo que não cabe nesses lugares de consagração. "Eu preciso de minhas memórias. Elas são meus documentos. Eu as vigio", diz Louise Borgeois na epígrafe do livro - dando-nos a chave para essa poética cúmplice do "lado ímpar da memória", singular, autoral, comovente.
22 setembro 2024
Ar de provença
Sempre que Augusto de Campos assina algo toda uma imensa tradição de poesia se movimenta junto, oxigenando o labor com (e a reflexão sobre) a palavra poética. E a relação de Augusto com a tradição tem raízes profundas na música. Por exemplo, foi de texto de canção do trovador provençal Arnaut Daniel que os poetas concretos brasileiros pinçaram e ressignificaram o termo "noigrandes" - "(...) olors de noigandres" característica de flor [de noz moscada?] cujo perfume liberta-nos do tédio [olors (perfume), enoi (tédio), gandres (do verbo gandir, libertar)]. Incorporado ao vocabulário e à prática poética, o termo deu nome à revista que Augusto, Haroldo de Campos e Décio Pignatari editaram em 1952 e ao grupo depois composto também por Ronaldo Azeredo e José Lino Grünewald. Desde então, Augusto de Campos tem desempenhado o trabalho de revocalizar (recolocar na voz; transcriar) textos que, vocais em seus contextos de criação, hoje acessamos apenas impressos nas páginas de livros raros. AR DE PROVENÇA é exemplo disso. No CD encartado ou por Código QR podemos ouvir cantos (na voz de Antoni Rossell) e oralizações (na voz de Augusto) de duas canções de Arnaut Daniel (que "adotou um modo de trovar em rimas raras, razão por que suas canções não são fáceis de entender nem de aprender"), uma de Marcabru ("temido pela sua língua, pois dele era tanto o maldizer") e uma de Bernart de Ventadorn ("pobre de nascimento (...) sabia cantar e trovar bem e tornou-se cortês e instruído") - todas traduzidas por Augusto de Campos. A bela edição que a editora Cobalto preparou para AR DE PROVENÇA reedita textos, traduções, intraduções e imagens singulares para a compreensão da poesia inventiva e experimental brasileira. Destaquem-se ainda a flauta de Valeria Bittar, a rabeca de Luiz Fiaminghi e a parceira sempre potencializadora de belezas entre Augusto e o produtor musical Cid Campos.
15 setembro 2024
Soneto, a exceção à regra
Um livro com a assinatura de André Capilé e Paulo Henriques Britto já nasce referência. O equilíbrio entre erudição (o conhecimento) e comunicação (digna dos mestres que são) faz de SONETO, A EXCEÇÃO À REGRA um livro obrigatório na mesa de quem trabalha, faz, estuda poesia no Brasil. Capilé e Paulo mostram que forma é conteúdo e que "não há uma forma fixa do soneto quando olhamos para o contexto brasileiro na composição desse tipo de poema", conforme escrevem. A seleção dos sonetos lidos dá conta dessa diversidade, das apropriações, das rasuras. Algo cada vez mais raro, o corpo a corpo com cada soneto, esse "modelo duro do cânone, por si só tão masculino, tão branco", cria um conjunto de pequenas/grandes aulas de leitura de poesia. Mas o uso do ouvido guarda o segredo da eficácia das leituras de Paulo e Capilé, também poetas e tradutores. "Outro elemento sonoro, que ouvidos distraídos podem deixar passar, é o tema dos sons nasais que atravessam quase todo o texto, um jogo constante que na estrofe final deixa só o cheiro [aroma], incidindo alguma abertura do gritante /a/ de 'amargos', 'capros', letargos', 'luar' que, no fim, se fecha em 'tuberculoso'", escrevem na leitura de "Lésbia", de Cruz e Sousa. E que beleza a leitura de "Soneterapia 2", de Augusto de Campos! "O poeta toma de empréstimo catorze versos combinando a tradição das poéticas escritas e da canção, amarrando o grande tema do amor finito à língua de formação", escrevem. A lição de combinar tradição e revisão crítica da estrutura dos poemas é praticada com excelência por André Capilé e Paulo Henriques Britto.
08 setembro 2024
Mudar: método
Édouard Louis não nega que sua escrita tem forte inspiração na obra de Didier Eribon. Numa perspectiva mais irritada, pode-se mesmo dizer que MUDAR: MÉTODO é um canto paralelo, uma paródia, uma diluição de "Retorno a Reimns", livro de Eribon citado e referenciado por Louis. Mas há algo de singular em MUDAR: MÉTODO, as nuances da classe social. E isso é, talvez, o que de melhor a obra de Louis provoca: lembrar que a classe é um dos eixos onde o sujeito está e é no mundo. Como não me reconhecer nos momentos em que o pequeno Louis, ou seja, o ainda Eddy Bellegueule, vai à casa de vizinhos pedir comida? Era eu quem ia à quitanda pedir fiado, pois a mãe "sabia que uma criança despertaria mais facilmente pena do que um adulto". Os momentos de camuflagem do sotaque também batem fortes. Ou quando os vizinhos perguntam "por que o Eddy fala assim, igual a uma menina? Por que vira as mãos quando fala? Por que olha desse jeito para os outros meninos? Será que ele não é meio viado?". Louis narra seu método de mudança, suas dores e delícias na tentativa de inclusão num mundo em que ele crer melhor: o burguês. Tornar-se burguês é o imperativo, afinal. É essa transição do filho de operário a leitor (Louis lê todos os nomes de prestígio literário e sabe traduzir bem e incorporar com eficácia seus pensamentos) e escritor burguês o que MUDAR: MÉTODO revela sem autopiedade. "Ao imitar essa vida, eu acessava um mundo que sempre o intimidou", escreve aqui; "A burguesia ia ao teatro ou à ópera, para nós era o supermercado que nos fazia sonhar", escreve ali. A tradução de Marília Scalzo encontra o tom certo para fazer o narrador conversar com leitores diversos e distantes: do interior da França ao interior do Brasil.
01 setembro 2024
Jardim botânico
Nuno Ramos é artista polivalente. Em tese de doutorado recém defendida, Carlos Gomes de Oliveira Filho observou que na obra de Nuno Ramos encontramos "a presença de uma matéria-canção enquanto dispositivo crítico que distende as fronteiras presentes nos diversos campos artísticos e nos consequentes sistemas culturais em que essa matéria circula". Isso diz bastante do livro de poema JARDIM BOTÂNICO. Aqui vozes que muitas das vezes aparecem em itálico (sendo ou não citação direta de algum outro texto de terceiros) se infiltram e compõem a voz do sujeito poemático que dramatiza a própria partilha da escrita: "Minha incapacidade de morrer / povoa o tempo com palavras", lemos. E são palavras (o nome de) o que, na ausência das plantas, povoam as página do livro. "Aqui os nomes das plantas / crescem no lugar das plantas", dizem os dois primeiros versos de JARDIM BOTÂNICO. A imagem de uma onça queimada atravessa o livro em que cada poema parece desdobrar, redobrar o poema anterior. Ao ponto de, ao final, o escritor recolher muitos dos fragmentos de imagens proliferadas (semeadas) ao longo do texto, do jardim (selvagem, do mal). "O que temos então diante de nós é um solilóquio corajoso em que o poeta se embrenha a questionar-se sobre o valor e o sentido de suas próprias vivências", escreve Leonardo Fróes na orelha do livro. Qual é o papel do artista num mundo em que a jangada salva-vidas é de garrafas pet, esse elemento da natureza moderna? "De que fala este poema? / Essa é a pergunta, Nuno", escreve o poeta inscrito na escrita. Quem é leitor da obra de Nuno Ramos vai identificar algumas recorrências temáticas, como a referência ao "pau", ao sexo físico. A reflexão sobre o homo sapiens macho e "seu medo medonho de não ter uma voz" se mantem como uma questão da poética do escritor. "A vida que te deram era grátis, Nuno, nenhum preço a pagar", lemos aqui; "à palavra excitada / ereta, lubrificada / pronta pra enfiar / a mensagem na orelha da vítima", lemos ali. JARDIM BOTÂNICO é aquilo que numa "folha pousa / na prosa medrosa dos meus versos"; é a matéria-canção excrítica e escrítica do agora expandido, "onde letra e matéria dão match". E onde "eu era a onça queimada".
25 agosto 2024
Rebeldes e marginais
O subtítulo do livro REBELDES E MARGINAIS dá conta de apresentar aquilo que é tratado, ou seja, a "cultura nos anos de chumbo (1960-1970)". "Durante um grande período, estudei a fundo nossa produção cultural brasileira sob a mão pesada ditadura militar e da censura", escreve Heloisa Teixeira na Apresentação do livro que reúne fontes e reorganiza o material que a autora produziu sobre esta "época mágica, quando a cultura enfrentou estruturas, ditaduras e soube sonhar novos futuros". Equilibrando diagnóstico e terapêutica, a autora se reafirma como intérprete incontornável do período. E em REBELDES E MARGINAIS a parceria de trabalho entre Heloisa Teixeira e Marcos Augusto Gonçalves merece destaque. Com Marcos, a professora desenvolveu projetos fundamentais - "Cultura e participação nos anos 1960", "Impressões de viagem", etc. Por exemplo, em depoimento a ele, lemos Caetano Veloso afirmando sobre o Tropicalismo: "a gente fez essa coisa com grandeza, colocando em xeque a pequenez dessa elite colonial que é a sociedade brasileira, uma nação que não é ainda inteiriça, que não acontece, onde as coisas não rolam e onde as pessoas não têm acesso a quase nada". REBELDES E MARGINAIS traz códigos para acesso a entrevistas e documentos audiovisuais raros de Heloisa Teixeira, tornando a leitura "viva" e estimulando quem lê a pesquisar também.
18 agosto 2024
A guerra invisível de Oswald de Andrade
A GUERRA INVISÍVEL DE OSWALD DE ANDRADE é um livro notável. A sensibilidade com que Mariano Marovatto reconstrói as intempéries vividas pelo controverso modernista dá conta de traduzir em perfil ensaístico aquilo que de mais complexo há na obra e na vida de Oswald: seu impulso de universalização da arte brasileira com foco na nossa distintiva "antropofagia", e no "tropicalismo literário", como registrou Roger Bastide, e no "tumultuoso aglomerado de raças", nas palavras do próprio Oswald. Isso porque Mariano apresenta um Oswald com olhos e ouvidos livres, mesmo que por vezes, devido ao contexto crítico de guerra, assombrado com os encaminhamentos de ideias e ideais de "progresso". "Oswald escrevia na mesma velocidade em que o mundo girava. Convencia-se de que, ao experimentar o Zeitgeist, pudesse talvez mudar o curso dos acontecimentos", escreve Marovatto. A GUERRA INVISÍVEL DE OSWALD DE ANDRADE é resultado de pesquisa, levantamento de dados e, repito, sensibilidade, naquilo que o momento ainda hoje guarda de difuso e pouco conhecido: a viagem de Oswald e Julieta Barbara a Europa e a urgência de retorno ao Brasil na eclosão do nazismo. Mariano defende que essa viagem frustrada (esse trauma) repercutiria para sempre (como um totem) nas intuições e perspectivas críticas oswaldianas. "Levando em consideração que a autoficcionalização de sua biografia foi notável e constante", Marovatto lança luz sobre esse transe do autor de Marco zero que, defendendo a autonomia cultural e social brasileira, afirmara: "as catacumbas líricas ou se esgotam ou desembocam nas catacumbas políticas".
11 agosto 2024
Haroldo de Campos Transcriação
Entre os incontornáveis textos de Haroldo de Campos que Marcelo Tápias e Thelma Médici Nóbrega reuniram em HAROLDO DE CAMPOS TRANSCRIAÇÃO destaco "tradição, transcriação, transculturação". Nele Haroldo pensa "o ponto de vista do ex-cêntrico", afirmando que "a literatura brasileira nasceu sob o signo barroco" da "expropriação, reversão, desierarquização" e marcada por "complicado quimismo em que já não é possível distinguir o organismo assimilador das matérias assimiladas". Isso se espraia ao longo dos tempos e de várias formas. Por exemplo, "Machado de Assis não representa um momento de aboutissement, mas sim um momento de ruptura. Seu nacionalismo não é mais o nacionalismo ingênuo de certos românticos de aspirações ontológicas, mas um nacionalismo 'crítico', 'em crise', dilacerado, em constante diálogo com o universal". Haroldo está interessado naquilo que também interessava Hélio Oiticica (em entrevista a Ivan Cardoso), a saber: "O artista só pode ser inventor, senão ele não é artista". Inventar é devorar criticamente suas referências. Daí o conceito de transcriação haroldiano estar na mesma clave semântica da antropofagia crítica de Oswald de Andrade, no que se refere ao trato da língua e da linguagem polilíngue do Brasil. "A politópica e polífônica civilização planetária está, a meu ver, sob o signo devorativo da tradução lato sensu. A tradução criadora - "a transcriação" - é a maneira mais fecunda de repensar a mímesis aristotélica, que marcou tão fundamente a poética do Ocidente", escreve Haroldo. E nisso o Brasil pode oferecer experiência e prática.
04 agosto 2024
Introdução à poesia oral
"Além de um saber-fazer e de um saber-dizer, a performance manifesta um saber-ser no tempo e espaço. O que quer que, por meios linguísticos, o texto dito ou cantado evoque, a performance lhe impõe um referente global que é da ordem do corpo. É pelo corpo que nós somos tempo e lugar: a voz o proclama, emanação do nosso ser. (...) tudo se colore na língua, nada mais nela é neutro, as palavras escorrem, carregadas de intenções, de odores, elas cheiram ao homem e à terra (ou aquilo com que o homem os representa). A poesia não mais se liga às categorias do fazer, mas às do processo: o objeto a ser fabricado não basta mais, trata-se de suscitar um sujeito outro, externo, observando e julgando aquele que age aqui e agora. É por isso que a performance é também instância de simbolização: de integração de nossa relatividade corporal na harmonia cósmica significada pela voz; de integração da multiplicidade das trocas semânticas na unicidade de uma presença". Bastaria Paul Zumthor ter feito essa anotação e toda a sua teorização se desdobraria. Mas ele fez muitas outras, tão luminosas quanto. INTRODUÇÃO À POESIA ORAL é livro de cabeceira de quem pensa a performance enquanto produção de presença, recusa à privatização da linguagem, elaboração coletiva de pertencimento, compreensão da ontologia da voz.
28 julho 2024
Por entre traços e cores
No texto "Eu nunca quis pouco: as capas de Caetano Veloso" (ver livro "Lamber a língua: Caetano 80"), Aïcha Barat pergunta-se "qual relação Caetano cria com suas capas ao longo de sua carreira? Como elas ecoam seu projeto artístico e por que elas são terreno fértil para se refletir sobre sua obra?". Essas perguntas podem ser levada para a obra de outros artistas da canção brasileira. É o que faz Aïcha Barat noutros textos e na tese de doutorado, mas também Delzio Marques Soares no seu livro POR ENTRE TRAÇOS E CORES, em que analisa "a retórica do design nos lps da Tropicália". "Quais recursos argumentativos foram empregados no projetos gráficos de cada uma dessas capas?", pergunta-se Delzio. Com base na Retórica do Design Gráfico, o autor desenvolve argumentações luminosas para as "capas-embalagens" enquanto extensão do projeto estético-cancional de discos fundamentais de nossa história da canção. Depois de pertinente revisão bibliográfica sobre retórica, argumentação e linguagem visual, Delzio ilumina a importância da visualidade como parte fundamental da comunicação ético-poética da Tropicália. As cores vibrantes, os ícones pops, Gil de fardão da ABL, Caetano emoldurado por bananas, serpente e ninfa, a indumentária dos mutantes, os anúncios da liquidação de Tom Zé, a pose melancólica de Nara, o tropicaos de Druprat e o jardim de inverno de "panis et circencis" entram em rotação na leitura crítica de Delzio. "É nesse sentido que me propus analisar as capas dos sete álbuns tropicalistas: tornando-as como discursos, inventariando seus recursos argumentativos como resultado de um projeto de Design, para poder confrontá-los com esse ethos tropicalista", escreve e executa o autor de POR ENTRE TRAÇOS E CORES, livro que nos ajuda a compreender a Tropicália enquanto projeto verbivocovisual.
21 julho 2024
Anos 70 ainda sob a tempestade
O livro ANOS 70: AINDA SOB A TEMPESTADE reúne os cinco volumes publicados separadamente por área - música, literatura, teatro, cinema e televisão - e escritos no calor e no temor da hora. Eram os anos cinzas do governo militar. Os textos publicados sob coordenação de Adauto Novaes diagnosticavam o estado das artes num contexto de invenção e resistência, desbunde e protesto. Aqui reunidos esses textos ajudam a perceber o que permaneceu, o que pereceu, mas, principalmente, os esforços de intelectuais e artistas que apostavam na crítica em momento de crise aguda. Censura e autocensura podem ser rastreadas em cada interpretação vertida agora em documento que nos ajuda a ler um contexto ético e estético ainda pouco entendido e analisado. "O tempo nos distanciou dos anos 70 para que pudéssemos ganhar o direito de falar deles mais livremente", escreve Adauto. Por motivo de trabalho e interesse de pesquisa acadêmica, os volumes "música" e "literatura" sempre estão à mão. Como ouvir canção do mesmo modo depois de ler no texto de José Miguel Wisnik que "no Brasil a tradição da música popular, pela sua inserção na sociedade e pela sua vitalidade, pela riqueza artesanal que está investida na sua teia de recados, pela sua capacidade de captar as transformações da vida urbano-industrial, não se oferece simplesmente como um campo dócil à dominação econômica da indústria cultural que se traduz numa linguagem estandardizada, nem à repressão da censura que se traduz num controle das formas de expressão política e sexual explícitas, e nem às outras pressões que se traduzem nas exigências do bom gosto acadêmico ou nas exigências de um engajamento estreitamente concebido"? Sem falar nos textos de Ana Maria Bahiana e Margarida Autran. É por isso e muito mais que ANOS 70: AINDA SOB A TEMPESTADE é livro de cabeceira.
14 julho 2024
ABC do Sérgio Cabral
Certos historiadores guardam o privilégio de terem estado no momento histórico que historiografam e fazem da própria obra a historiografia precisa e o arquivo aberto dos acontecimentos. É o caso de Sérgio Cabral. Suas biografias, suas colunas, seus textos e livros de crítica de canção popular, mais do que registrar a história, assentam conhecimento e vivência. "Ele se tornou parceiro de compositores, amigo de músicos, diretor de espetáculos e produtor de discos. Esta proximidade gerou grande parte das histórias deste livro e foi o que certamente lhe garantiu escrevê-lo", diz Roberto Moura na quarta capa de ABC DO SÉRGIO CABRAL, volume de 1979 que traz "um desfile dos craques da MPB" - de "A de Alvaiade conta Portela" até "Z de Zé Kéti", passando por uma série de personalidades e entidades que compõem o espírito das ruas da cidade do Rio de Janeiro, matéria maior da obra de Sérgio Cabral. Dentre sua vasta produção, destaco ABC DO SÉRGIO CABRAL por seu texto precioso sobre Caninha (José Barbosa da Silva), segundo Cabral, "adversário cordial de Sinhô, Caninha dividiu com o Rei da Samba a honra de ser autor dos maiores sucessos populares da década de 1920". Quem mais escreveria sobre Caninha? E sobre Alvaiade? Sérgio Cabral tinha a generosidade de quem faz do arquivo de sua pesquisa um bem público, estimulando quem lê a pesquisar, a se interessar pelo narrado. Pode-se consultar o valioso arquivo físico de Cabral, mas e os causos, e a narração dos acontecimentos? Poucos sabem contar. Sérgio Cabral sabia.
07 julho 2024
Mar paraguayo
Ao tratar daquilo que chamou de “tradição de uma fala delirante na cultura brasileira”, da qual o diretor José Celso Martinez Corrêa fazia parte, Ericson Pires observou que “a ideia de fala delirante é construída a partir da percepção de uma série de ressonâncias e tunelamentos entre obras e autores dentro da produção artística e cultural brasileira que apresentam, no caráter delirante, uma parte pulsional da obra/vida” (ver livro Zé Celso e a Oficina-Uzina de corpos). Isso nos ajuda a pensar também a literatura de Gregório de Matos, Sousândrade, Oswald de Andrade, Guimarães Rosa, José Agrippino de Paula, Haroldo de Campos, Caetano Veloso, Jorge Mautner, Wilson Bueno - todos autores que lidam com o delírio sonoro da palavra escrita no Brasil, experimentando materialidades fônicas, a partir da coloquialidade e da prosódia do país. MAR PARAGUAYO é ótima partilha do sensível disso. "(...) y esto es como grafar impresso todo el contorno de uno cuerpo vivo en el muro de la calle central", diz a voz narrativa a certa altura dando a chave daquilo que ela realiza em dicção multilíngue. Wilson Bueno coloca o leitor à deriva, como a voz que confidencia: "(...) añaretã, añaretãmeguá, com mucho miedo, los confidencio, a vos, lectores invenctivos, mas invenctivos que la invención de mi alma cautiva de estos derrames, de estos exageros de tangos y guarânias harpejadas dolientes in perfecta soledad a la margen de los lagos ô de las montañas, a vos, que me descifraron en outra dimensión, a vos confidencio: hay una duda, una gran duda, morangú, que me persegue por la casa e toda vez me pone, como já expliquê, me pone al rastro del infierno (...)". É essa vida em estado de delírio o que MAR PARAGUAYO nos faz experimentar.
30 junho 2024
Caetano Por que não?
De toda a vasta bibliografia que a obra de Caetano Veloso tem, o livro de Ivo Lucchesi e Gilda Korff Dieguez merece destaque. Definido como "uma viagem entre a aurora e a sombra", CAETANO. PORQUE NÃO? usa a pergunta da canção "Alegria, alegria" para passar em revista crítica a discografia e as falas públicas do organizador do "movimento" Tropicália até 1993. Trabalho excepcional de garimpo, singularidade, curadoria e ajuste por temas. As mutações todas de Caetano são postas em justaposição que dá o tamanho exato da presença do artista na cultura brasileira. Basta dizer que o livro guarda 516 depoimentos dados por Caetano entre 1966 e 1993. Destaque a paixão pela palavra, pelo uso inventivo da palavra poética e crítica. "Corpo, individual ou coletivo, é sempre fonte de prazer ou dor, liberdade ou prisão, desejo ou sublimação. No caso, a obra de Caetano aponta para a opção pelo prazer, liberdade e desejo, até como símbolo de resistência e insubmissão às forças externas que querem domá-lo", anotam os autores. CAETANO. PORQUE NÃO? é fonte de consulta incontornável.
23 junho 2024
Operação forrock
No livro OPERAÇÃO FORROCK, Felipe da Costa Trotta, Arthur Coelho Bezerra e Marco Antonio Gonçalves assinam individualmente três textos sobre a tradição e a renovação das sonoridades - importações e exportações - do Nordeste brasileiro. Sanfona, rabeca, samplers, Gonzaga, Science, cordel, sertão e litoral são analisados como aspectos de uma grande "zona de contato" sonoro. Nesse ambiente, "ainda que outros artistas tenham desenvolvido narrativas mais plurais e menos estereotipadas, ainda hoje o som da sanfona e o sorriso de Gonzaga representam uma certa unidade identitária regional, reconhecida dentro e fora dos limites da região", escreve Trotta. "É na cultura afro-brasileira que encontramos a origem do ritmo que mais caracteriza a participação da tradição popular na música de Chico Science - o maracatu", escreve Bezerra. "Para o cordel a poética é apreendida através da performance em que o afetivo, o subjetivo e o conceitual aparecem na simultaneidade criando uma relação entre intérprete e ouvinte, sendo mesmo a própria performance uma condição na narrativa", escreve Gonçalves. Performance parece ser a palavra-chave para se entender as narrativas de Nordeste que a canção popular engendra na cultura nacional ao longo do tempo. Épocas, estilos, tradições e rupturas se representam no corpo de artistas diversos, sempre em negociação complexa com o mercado, para dar conta de cantar o "ser nordestino", essa invenção sudestina ainda e sempre em processo de operação.
16 junho 2024
Falas curtas
Demorei a conhecer a obra de Anne Carson. Não fossem minhas alunas eu ainda estaria na ignorância do pensamento de autora tão importante para a reflexão do que seja "escrita de si", do que seja a prática da interpretação "com" a literatura. Em FALAS CURTAS Carson anota as leituras que fez, compondo seu paideuma estético: Stein, Ovídio, Parmênides, Bardot, Kafka, Claudel, Plath. "Comecei a anotar tudo o que era dito. Os rastros e vestígios constroem aos poucos um flagrante da natureza, da monotonia de uma história. Isso para mim é importante", lemos na introdução. Roland Barthes disse que quanto mais a gente "levanta a cabeça" durante uma leitura melhor o livro é. FALAS CURTAS são as levantadas de cabeça de Carson, aquilo que inquieta suas verdades friccionadas pela literatura de outros que, de tão provocadora ("falam de uma voz chamando no deserto"), passa a ser sua literatura - colagens, citações, enxertos. A crítica enquanto anotação. Professora de grego antigo, Carson passa em revista sua formação, deixando o palimpsesto ocidental falar.
09 junho 2024
Tropicalista lenta luta
Desconheço se há um cancionista que melhor experimenta, inventa, cria e força os limites da canção do que Tom Zé. Desde o primeiro disco, quando escreveu "Eu sou a fúria quatrocentona de uma decadência perfumada com boas maneiras e não quero amarrar minha obra num passado de laço de fita com boemias seresteiras", até o mais recente disco Língua brasileira (2022), Tom Zé entrega a seus ouvintes verdadeiras teses verbivocoperformáticas sobre cultura, arte e vida no Brasil. Melodias e letras, vozes e instrumentações sempre a serviço do acesso aos nossos núcleos duros. Cancionista crítico, Tom Zé pensa como quem brinca, totemizando o Brasil, essa "Babel das línguas em pleno cio", como canta na canção que dá título ao urgente e estupendo ao disco. Por isso e muito mais, seu livro TROPICALISTA LENTA LUTA merece leitura atenta, lenta. Nele encontramos significantes fundamentais para compreender de modo crítico um dos momentos mais interessantes da nossa canção, uma canção que, sendo inventiva, transgressiva, se queria popular, "biscoito fino" para as massas. "Não cantar apagava a visualidade de Torquato, na fase em que se instaurava com mais força o cantor-imagem", escreve Tom Zé num dos textos recolhidos no livro.
02 junho 2024
A vegetariana
"Então ela se lembra da visão dos corpos nus e entrelaçados do marido e Yeonghye. A imagem a chocou muito, não havia dúvida, mas conforme o tempo passa, por alguma razão, ela já não a relacionava a algo sexual. Aqueles corpos, cobertos de flores, folhas e caules verdes, eram tão estranhos que já não se assemelhavam a pessoas. Os movimentos que faziam pareciam forjar uma luta para deixar de serem humanos", lemos a certa altura de A VEGETARIANA, de Han Kang. A trama incomum é contada de modo inovador, experimental. Quem lê se vê íntimo de uma personagem "sem fala". Sabemos dela pelos outros, por aqueles que nela engendram o trauma e os limites entre o desejo e a crueldade, o explícito e o subentendido. A tradução fluida de Jae Hyung Woo é parceira importante no sonho intranquilo proposto pela narrativa.
26 maio 2024
Oração para desaparecer
"Os lenços eram objetos preciosos porque continham um pequeno poema que declarava o amor. Levavam meses bordando à luz de velas, escolhendo os desenhos e os versos, quase sempre em galaico-português, porque ali já era quase outro país, o Norte de Portugal já faz fronteira com a Espanha e por isso a mistura de idiomas na poesia dos lencinhos". Esse parágrafo de ORAÇÃO PARA DESAPARECER diz muito da delicadeza com que Socorro Acioli cria a textura lírica e trágica de seu livro. Identidade e memória são reconstruídas com rigor e prazer. Acompanhamos o trajetória de Cida, a busca pelo seu duplo (seu passado?) animados por uma narrativa que faz da própria narração-de-si o mote ideal. O tempo narrativo é solapado a serviço do narrado. Isso é tão raro de se alcançar sem arestas. É bonito perceber quando isso acontece. E em ORAÇÃO PARA DESAPARECER acontece. As vozes em primeira pessoa se sobrepõem no tom correto de criar o palimpsesto da história. "A vida é feita de palavras, elas explicam e fazem nascer e morrer. (...) Estar vivo é ser palavra na boca de alguém", lemos no final do primeira parte do livro, quando Cida nos conta como foi desenterrada. É no jogo das palavras-que-falam-de-si que as personagens vivem enquanto enredo no mundo. E a língua, o cruzo das línguas é fundamental nesse processo. Assim, como várias manifestações da fé. ORAÇÃO PARA DESAPARECER resgata um episódio histórico esquecido, convocando os leitores a refletir sobre a tensão entre os povos originários e a Igreja Católica.
19 maio 2024
Chico Buarque do Brasil
Dentre os livros que analisam a obra do autor de "Geni e o Zepelim", CHICO BUARQUE DO BRASIL se destaca. Profundo conhecedor da obra buarqueana, Rinaldo de Fernandes organiza textos com enfoques diversos. Antonio Candido, Regina Zappa, José Saramago, Cecilia Almeida Salles, Augusto Boal, Regina Zilberman, Frei Betto compõem um coro de quase 50 autores debruçados sobre as canções, o teatro e a ficção de Chico, construindo seu lugar de intérprete do Brasil. Amador Ribeiro Neto, por exemplo, cruza o poema "Cidade City Cité" de Augusto de Campos com o disco "As cidades", lançado por Chico em 1998 - "num e noutro o caleidoscópio cotidiano de seres e coisas da cidade descatam-se com os contornos de uma lente objetiva ou angular", escreve Ribeiro Neto. Por sua vez, Sônia Ramalho aponta que "o duplo pastiche autobiográfico veiculado pela circularidade romanesca torna possível a "Budapeste" problematizar a noção de individualidade autoral inerente ao gênero autobiográfico clássico". Friccionando tradições e promovendo rupturas, na palavra escrita, ou encenada, ou cantada, a obra de Chico Buarque recebe aqui a atenção justa. Lançado nas comemorações pelos 60 anos do artista, CHICO BUARQUE DO BRASIL interpreta o intérprete. Para o organizador do livro, "num país deselegante, indiscreto e pouco generoso com boa parte de sua população, Chico é coro do contrário - ainda". E quem há de negar?
12 maio 2024
O belo caminho
Em O BELO CAMINHO Gary P. Leupp apresenta a "história da homossexualidade no Japão". É muito interessante perceber o que a "ocidentalização" do Japão fez com os costumes daquele país que nem o termo "homossexual" (ou parecido) usava, dada a diversidade de práticas e jogos eróticos possíveis entre pessoas do mesmo sexo, notadamente, homens. E nisso as culturas se irmanam, no patriarcado, na brotheragem que incensa de hipocrisia a moral e a ética. O rico trabalho de pesquisa em arquivos de documentos e imagens faz do trabalho de Leupp uma obra importante e rara, por desvelar de modo tão direto essa história pouco conhecida. Afinal, "é comum sociedades atribuírem a gênese da sua homossexualidade ao estrangeiro: os hebreus associavam-na às culturas pagãs egípcias e canaanitas; os gregos imputavam sua pederastia aos persas; os europeus medievais consideravam a sodomia um pecadilho árabe trazido pelos Cruzados; e os ingleses renascentistas estavam convictos que o 'vício inominável' chegara às ilhas por meio de, dependendo da conjuntura das suas relações internacionais, Castela, Itália, Turquia ou França", anota Leupp, sob tradução de Diogo Kaupatez. Mas "como explicar o surgimento e a difusão de uma cultura nanshoku monástica, tamanha a fobia homossexual dos textos budistas continentais?", pergunta-se o autor de O BELO CAMINHO. Nanshoku é termo utilizado para referir-se a relações homossexuais entre homens, traduzido como “cores masculinas”. O livro percorre respostas, desde a "tolerância social" até a "construção de gênero", passando mesmo pela "comercialização do nanshoku", presente nas tradições monástica, militar, burguesa. Leupp mostra como "o conceito de nanshoku-zuki cedeu lugar ao alemão urning, indivíduo que padecia de desordem psicológica. Assim, os homens se tornaram pouco propensos a conhecer, e muito menos experimentar, o prazer homossexual". O desdobramento foi a marginalização. E nisso o livro conta bastante a história do desejo sexual também em nosso cultura.
05 maio 2024
Fremosos cantares
O livro FREMOSOS CANTARES é material primoroso para quem quer imaginar com rigor e prazer o som da lírica medieval galego-portuguesa, braço e berço importante de nossa lírica. A professora Lênia Márcia Mongelli aciona o gaio saber sonoro de uma poesia que se realizava na voz, no canto, na presença física de quem cantava e de quem ouvia. Em relação à poesia trovadoresca, é sempre importante destacar o caráter coletivo das cantigas e a tensão entre o indivíduo e sua subjetividade. Da interação entre música, poesia e performance, surgia a formação de um "eu coletivo", de um "corpo místico", nas palavras do professor João Adolfo Hansen, ao pensar as letras coloniais brasileiras, por exemplo. Algo que nos é difícil acessar hoje, tamanha a nossa individuação. Fato é que, como se sabe, o virtuosismo era elemento constitutivo do poeta trovador, o que, por vezes permitia certa exteriorização dos estados de espírito, conforme observado por Mongelli. Para a autora, O lirismo trovadoresco galego-português não é, evidentemente, uma poesia 'confessional'. Não se pode esperar encontrar nela um 'eu' individual expresso com a densidade introspectiva romântica ou com o nível de verticalidade psicológica dos simbolistas ou com a consciência moderna de que fazer é revelar. Contudo, é preciso matizar os limites do chamado 'eu coletivo' medieval". Antologizando, comentando, corporificando, cotejando e singularizando vozes de um coro (hoje) mudo de poemas da vasta poesia desse período, FREMOSOS CANTARES abre nossos ouvidos.
28 abril 2024
De uma a outra ilha
"(...) há de se impelir na imaginação o movimento que conduz o homem à ilha. É só em aparência que um tal movimento vem romper o deserto da ilha; na verdade, ele retoma e prolonga o impulso que a produzia como ilha deserta; longe de compromete-la, esse movimento leva-a à sua perfeição, ao seu apogeu. (...) A ilha seria tão-somente o sonho do homem, e o homem seria a pura consciência da ilha", escreveu Gilles Deleuze em "Causas e razões das ilhas desertas" (trad. de Luiz Benedicto Lacerda Orlandi). Evoco Deleuze para comentar o poema-livro DE UMA A OUTRA ILHA, de Ana Martins Marques, não apenas porque a poeta utiliza aquilo que o filósofo chamou de “diferença e repetição”, basta observar os vários deslocamentos de trechos, versos, temas dentro do poema-livro (de "dinheiro, celular, cigarros" do refugiado, às apropriações de matérias jornalísticas, de textos de Anne Carson, de versos de Safo), mas porque é nessa verve metalinguística inter e intratextual que o texto de Marques se realiza. Colchetes, travessões, itálicos, espaçamentos, asteriscos, incorporação da linguagem jornalístico-documental arquivam (porque re-velam) a voz cuja partitura se perdeu; "toda a música de Safo / se perdeu", lemos em Anne e em Ana. Para tanto, DE UMA A OUTRA ILHA justapõe temporalidades (na montagem dos pedaços do óstracon, suporte do poema sáfico, metáfora das subjetividades dos exilados e refugiados de agora), efetivando "o trabalho dos séculos: (...) disfarçar que o mundo é pobre / sobrepondo-lhe / adereços". Mas não para fugir do "real", ao contrário, expô-lo e comover, exigindo e propondo a ação de quem lê. O que conduz a poeta à ilha não é o que conduz o refugiado à ilha. A consciência ética e estética dessas conduções suplementares está no meio do livro-poema, quando Ana Martins Marques elenca o que se perde ao sobreviver. O apogeu de DE UMA A OUTRA ILHA está em ser (fazer quem lê experimentar) a "porcelana trincada" que todo poema deveria ser, ao exigir de quem lê cuidado e atenção com o deserto da língua e da linguagem poética viva.
21 abril 2024
Gentis guerreiros
O poema “Canção do exílio” fixou uma imagem do Brasil que extrapolou as páginas dos livros. Naquele momento pós-Independência, as nossas cores, a nossa fauna, a nossa flora foram cantadas de forma ufanista para nos diferenciar do colonizador. Extremamente musical, escrito em redondilhas e sem adjetivações, seus versos foram incorporados ao hino nacional e fazem parte da memória afetiva dos brasileiros - sendo um dos poemas mais parodiados, pastichizados de nossa história. Mas Gonçalves Dias fez mais. Ainda na esteira do bicentenário do poeta maranhense em 2023, reli o pioneiro GENTIS GUERREIROS, livro em que Cláudia Neiva de Matos analisa o "Indianismo em Gongalves Dias". O "em" aqui é chave de leitura do trabalho de Cláudia, já que a autora demonstra como o poeta incorporou procedimentos, ritmos e temas originais (e originários), no que se refere à representação de vozes e corpos até então recalcados; e fundou uma "convenção" do nacional, "fabricada com materiais ideológicos e estéticos: cumplicidade de duas categorias que ao mesmo tempo rechaçam a realidade e a ela se apegam obscurantemente - inventam-na", escreve. A professora passa em revista a recepção crítica da obra do poeta - Lúcia Miguel Pereira, Antonio Candido, Cassiano Ricardo, são alguns interlocutores; além de comparar a obra gonçalvina com a tradição por ele herdada e com escritores seus contemporâneos. "Para bem compreender o mecanismo da idealização do herói e de seus pares em Gonçalves Dias, é preciso observar como aí se combina a mítica do cavaleiro feudal à do bom selvagem", orienta. E observa, com análise de trechos, que o indianismo gonçalvino "é muito mais amargo que o do deputado, ministro e homme du monde Alencar, ao mesmo passo que aponta um conceito de nacionalidade inteiramente diverso". Por essas e outras miradas e miragens da leitura crítica rigorosa, GENTIS GUERREIROS é livro fundamental para a compreensão da contradição brasileira encarada pelo poeta. Contradição que Cláudia estabelece desde o título de seu livro.
14 abril 2024
Refazenda
O disco Refazenda (1975) dá início à chamada “trilogia Re”, de Gilberto Gil, composta com Refavela (1977) e Realce (1979) e suplementada pelo disco Refestança, gravado ao vivo por Gil e Rita Lee em 1977 e a canção "Refloresta" (2021). Ao traçar o percurso de volta às raízes de Gil, Refazenda é fundamental em sua discografia, por considerar o contexto cultural e social em que o cancionista se formou. Isso inclui elementos como a tradição musical local, as influências da mídia popular e as mudanças sociais e políticas que ocorreram durante sua juventude. Para Chris Fuscaldo, a autora do livro REFAZENDA - O INTERIOR FLORESCE NA ABERTURA DA FASE "RE" DE GILBERTO GIL, depois de voltar do exílio, "enquanto viajava pelos palcos do Brasil, [Gil] ia transformando o desejo de retomar suas raízes naquele que seria o repertório de Refazenda – esse, sim, o marco de um recomeço". O livro lê e escuta o disco de Gil iluminando pontos de sua produção e recepção, ampliando a rede de sentidos. Chris Fuscaldo faz o diagnóstico e comprova com rigor crítico que “Refazenda representou uma virada para o Gilberto Gil músico, uma novidade musical para os que estavam acostumados com o artista (‘artivista’) ou tropicalista, tornando-se um disco até hoje comumente resgatado para inspirar releituras. E essa novidade musical trazia consigo, à tona, a essência de Gil e a busca por suas raízes”. Essas raízes são revolvidas e redivivas pela autora de REFAZENDA - O INTERIOR FLORESCE NA ABERTURA DA FASE "RE" DE GILBERTO GIL e se expandem na obra completa do cancionista que tão bem potencializa o acervo afroameríndio do gaio saber nacional. "Fazenda" é como "tecido" é chamado no interior, Refazenda é revisão da trama de fios que compõe a obra de Gil. Curadora do museu virtual O ritmo de Gil, lançado em 2022 pelo Google Arts & Culture, Chris Fuscaldo sabe bem disso e nos ajuda a reouvir Refazenda.
07 abril 2024
Mistura adúltera de tudo
"Quando conseguirmos, no lugar da estratégica omissão, estabelecer um respeitoso dissenso entre nós (em oposição aos verdadeiramente nefastos ataques da extrema direita), talvez estejamos mais perto de alguma resistência cultural contra a força dissolvente do neoliberalismo contemporâneo, para o qual - há tempos - já não há mais sociedade". A frase que encerra o ensaio MISTURA ADÚLTERA DE TUDO, mais do que apontar uma conciliação utópica, convoca-nos a refletir sobre os caminhos que nos levaram a tão facilmente aceitar a cooptação de nossos discursos, práticas e experiências éticas e estéticas pela extrema direita (que a tudo pasteuriza e aniquila), dos anos 1970 até aqui. Promovendo uma breve revisão constelar do percurso, Renan Nuernberger diagnostica nexos e lacunas fundamentais para quem pensa e faz arte (notadamente, com texto criativo) no Brasil. Se desde 1970 o esforço tem sido "tornar o presente habitável", quanto tempo se perde em falsas polêmicas e dicotomias e em verdadeiros apagamentos e exclusões? Se "riquezas são diferenças", como diz o rock - essa linguagem jovem do jovem -, no exercício da chamada "vida literária" reinam os grupos que se retroalimentam. "Sem a fricção do debate entre artistas, a esfera do mercado, na qual todos estamos inseridos, desmancha as diferenças formais em favor de uma supostamente irrestrita fruição estética, cujo resultado, no limite, é uma relação anestesiada com as obras consumidas", escreve Nuernberger. Sem tocar no tema do "leitor sensível" é disso que (também) está se falando aqui, da deseducação dos sentidos - resultado do excesso de (pseudo) harmonia. MISTURA ADÚLTERA DE TUDO é, com perdão da nostalgia, um elogio à intrincada relação entre poética e política, diferença e ocupação.
31 março 2024
Como e por que ler a poesia brasileira do século XX
Ítalo Moriconi é dos críticos que mais experimenta compreender a poesia feita a partir dos anos 1970. Sua contribuição crítica é referência incontornável para pesquisadores e professores. No livro COMO E POR QUE LER A POESIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX, Ítalo apresenta pelo menos seis linhas de força, todas girando em torno da ideia de que esse foi um "século modernista", a saber: a superação oswaldiana da cultura bacharelesca; a fragmentação (ou polifonia, ou multifacetada) drummondiana do eu; a quebra da hierarquia na constituição do cânone literário; o flerte tropicalista entre poesia e cultura pop; as vanguardas cabralina e concretista; e o fim dos fins das utopias. Nesse percurso, ora sobreposto, ora justaposto, Ítalo destaca quais são os poemas e os poetas essenciais. O livro apresenta, assim, excelentes leituras dos poemas selecionados, como por exemplo o "Poema de sete faces", de Carlos Drummond de Andrade, em que Ítalo vai fundo de modo didático e preciso (professor que é) no jogo entre forma e conteúdo, observando que o poeta faz "tudo para colocar o eu no palco. Este eu nada tem de excepcional, é um eu comum. Trata-se então da intimidade do homem comum. Não é o eu especial de um Poeta em maiúscula, com a grandiloquência de certo mau romantismo kitsch. É o mesmo eu corriqueiro de Bandeira, mas Drummond o trabalha noutras direções, complexificando-o, mostrando suas torções e contradições internas". É essa presença do corpo na vida, no corriqueiro, no cotidiano da cidade grande o que mais se evidencia na seleção e nas análises de Ítalo Moriconi, resultando num panorama eficaz e potente da poesia do século XX.
24 março 2024
Mosaico
Marcelo Mourão tem a palavra poética como profissão de fé. Mestre e doutorando em literatura brasileira, poeta, curador de saraus, professor, Marcelo tem desenvolvido um rico trabalho de manutenção do debate público sobre poesia. No livro MOSAICO temos o Marcelo pesquisador e crítico elencando autores e temas importantes "sem berloques, miçangas ou balangandãs", como bem afirma Sérgio de Castro Pinto no prefácio. Platão e Pessoa, Heidegger e Sloterdijk, Hamlet e Beowulf, José de Alencar e Waly Salomão transitam nos ensaios que compõem o livro, dando conta de plasmar seu título. A metalinguagem, o ser e estar no mundo, o romance de formação, as linguagens com as quais a poesia fricciona são os temas principais, com destaque para a pesquisa de Marcelo sobre os grupos Feira de Poesia e Passa na Praça, projetos que animaram poesia e política no cotidiano de um Rio de Janeiro fora do eixo zonasulista e sob ditadura. "A cidade real se torna cidade imaginada através do discurso que, ao voltar para essa mesma cidade na forma de versos gritados nas praças, acaba perpassando todo o imaginário do público presente, no ciclo de dialética permanente, num jogo constante de espelhamentos entre cidade real e cidade do imaginário", escreve Marcelo ao analisar um poema de João Alves. Assim como os autores que seleciona estudar, Marcelo se preocupa com a comunicação poética e a recepção do público. Sua preocupação ética resulta em textos de linguagem franca e elucidativa, também para não iniciados nos debates acadêmicos. Isso é raro e bonito.








































