Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
22 fevereiro 2026
A sátira e o engenho
A notícia da morte do professor João Adolfo Hansen chegou no meio do carnaval 2026. Se o carnaval ainda guarda algo do "corpo místico" trópico-nacional, essa experiência coletiva em que a elocução dos agentes se unifica numa generalidade nuclear que satiriza a vida ordinária, foi o rigor e o humor de Hansen que nos ajudou a essa compreensão, com foco na Bahia dos poemas atribuídos a Gregório de Matos. Aliás, com Hansen aprendemos que Gregório não tinha nada de transgressor, subversivo, anarquista. Muito pelo contrário, "a sátira é reguladora, circulando como o sangue por todo o corpo da República, prescrevendo as posições e as trocas hierárquicas adequadas para sua boa saúde, criticando a falta e o excesso", lemos em A SÁTIRA E O ENGENHO. Texto é contexto, lembra o professor. "A interpretação nacionalista da poesia barroca, que faz da 'persona' satírica um avatar da emancipação política, nunca leu nos documentos a divisão dos poderes em ordinário e absoluto pela qual a crítica às instituições está prevista como aprimoramento da ordem", adverte Hansen, leitor de documentos, arquivista crítico de tudo que leu. A erudição de João Adolfo Hansen estabeleceu um método para imaginar e interpretar nossas letras coloniais. "Na sátira, a matéria e o procedimento de composição dos mistos são os desses temas e prescrições, referencial de discursos locais esboçado nela como 'arquivo das inconstâncias'", lemos. De 'persona vazia', a sátira lida com estereótipos e tipos para "corrigir" o mal feito no ordinário. Tudo é puro teatro retórico moralizante estilizado no verossímil, afinal, "a informação visa à adesão do destinatário, porque o agente afirma 'sentir' naquilo que informa". O livro SÁTIRA E O ENGENHO é porta de entrada para um pesquisador, professor e mestre de mestres - uma porta incontornável para quem deseja entrar na alma do Brasil, alardeadamente, país da sátira, da caricatura, da (cada vez mais, pelo capital) controlada dissolução da hierarquia, da festa "barroca", "arquivo das inconstâncias", do carnaval - pragmática que prescreve o "bem comum", o regramento e a saúde do "corpo místico" da nação.

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