Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
02 novembro 2025
Ensaios de possessão
"Estes textos formam um conjunto que denomino ensaios de possessão, performance crítica, por meio da qual busco borrar os limites entre autoria, ficcionalidade e crítica levando ao extremo certa crispação originária da leitura de algumas obras ou de alguns autores", escreve Ana Chiara na Nota Prévia do livro ENSAIOS DE POSSESSÃO. A voz que escreve crítica caminha num intimidade pouco comum, corpo a corpo, com o sobre o que se escreve. "As formas do irrespirável são esse estado da linguagem convertida em ritmo e iminência do acontecimento. Um ritmo primitivo, um zumbido como um motor de avião, liberando imagens extremas, deixando o corpo em permanente alerta", lemos no primeiro ensaio, em que Hilst, Bataille, Duchamp, Rosa compõem um "zigue-zague mental" sofisticado e denso de pensamento. O título do texto "Ana Cristina Cesar: um anjo flagrado em pleno vôo" dá conta desse desejo da voz crítica de Chiara, um desejo de escrever experimentando com linguagem. "Você fechou os olhos no meio da queda?", pergunta à poeta. Em texto endereçado a Deleuze, Chiara escreve, já no título "Quem trabalha como eu tem de feder", tensionando a distância tantas vezes elogiada enquanto prudência entre autoria e escrita. Não à toa, a escrita aqui é Carolina Maria de Jesus, a alteridade que escreve em seus diários: "Não tomei café, ia andando meio tonta. A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago". É esse ar irrespirável o que move os ensaios de possessão. Carolina e Clarice Lispector aparecem em outros momentos, noutros textos. E se reúnem no incrível ensaio "Qual a diferença entre jejum e a fome? (experiência da pobreza em Carolina de Jesus e Clarice Lispector)". O texto começa dizendo "E agora revejo a foto das duas criaturas, a branca e a negra", comenta que a fome é em "Clarice, por uma espécie de escolha existência e [em] Carolina, por uma existência sem opção", e aponta o abismo entre "o de dentro (a subjetivação) e o de fora (o mundo, as pessoas, as relações) sobre o qual a escrita transita.

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