Lista em modo aleatório dos sons que (me) tocaram em 2014 e continuarão (me) tocando depois da virada:
- Rádio lixão: Filarmônica de Pasárgada
- Asa: Gustavo Galo
- Encanto: Rita Benneditto
- Arpoador: Leo Tomassini
- Vira lata na via láctea: Tom Zé
- Das coisas que surgem - Marcia Castro
- Convoque seu buda: Criolo
- Encarnado: Juçara Marçal
- Cores e valores: Racionais MC's
- Coisa boa: Moreno Veloso
- Barulho feio: Rômulo Fróes
- Ilhas de calor: Negro Leo
- Código Daúde: Daúde
- Anelis Assumpção e os amigos imaginários: Anelis Assumpção
- Nem: Cid Campos
- O Terno: O Terno
Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
27 dezembro 2014
18 dezembro 2014
Fecho encerro
A
canção, o teatro, a escultura, a arquitetura, a pintura, a poesia são linguagens em progresso, são exercícios
de experimentação do gesto artístico. Até chegar ao formato consolidado que
temos hoje – e que, por resistência e conformismo com o mercado, ainda vai
imperar por longo tempo – a canção passou (passa) por várias transformações.
Muitas dessas impostas pelo suporte. Mas, se no século XX a forma-canção
parecia definitivamente assentada, consensualmente, os sons eletrônicos e a
internet vieram destruir essa certeza. São muitas e descentradas as
possibilidades de se fazer canção hoje.
Penso
que compramos por muito tempo (por vezes acho que não a entendemos e/ou
forçamos sua pertinência para nós brasileiros) a impossibilidade de transmissão
da experiência, tal e qual Walter Benjamin nos apresentou e Adorno referendou.
Embora esse tenha feito revisões no conceito de “aura”. Mas, pergunto-me: sendo
as experiências outras, num mundo outro, cada vez mais veloz, as transmissões
não precisam se realinhar? Há impossibilidade ou os canais de transmissão e recepção
ficaram obsoletos?
Pensando
sobre essas e outras questões, posso sugerir que o disco Nem (2014) é mais um trabalho de excelência de Cid Campos. Da
primeira – canção que dá título ao disco e parece dialogar com “Uns”, de
Caetano Veloso – à derradeira canção, Nem
é Cid Campos dando forma sonora à forma verbal. Mas é mais que isso: há um desejo
arcaico e moderno muito bem engendrado.
Não
citei Caetano Veloso à toa. Caetano gravou “Circuladô de fulô”, trecho da proesia Galáxias, de Haroldo de Campos. “Fecho encerro”, gravada por Cid
como canção, vem da mesma obra literária de Haroldo. E é sobre esse trabalho de
musicar a palavra escrita que quero
comentar, já que Cid Campos tem desempenhado tão bem tal função poemusística.
Em Nem, por exemplo, temos textos de
Rimbaud, Emily Dickinson e Augusto de Campos. Além do já mencionado texto de
Haroldo.
No
livro Galáxias o trecho que inicia
com “Fecho encerro”, metalinguisticamente, encaminha o texto para o fim. Por
sua vez, a voz de Cid Campos entra no ritmo passional de um livro que finda.
Ele faz da voz de um narrador literário a verdade do sujeito da canção que
encerra o disco.
Para
tanto, Cid Campos alonga vogais e faz semi-pausas e pausas próprias da voz, do
ato de falar e cantar. Ele age sobre um texto sem vírgulas nem pontos finais.
Um texto que pede a interferência do leitor na construção significativa do percurso
sonoro. Aliás, Galáxias é uma obra
cuja estrutura permite mobilidades e construção de significações no trânsito
entre materialidades possíveis. O trecho que se inicia com “Fecho encerro”
destacado por Cid Campos é grafado em itálico, assemelhando-se à primeira
página (“E começo aqui”), mas diferenciando-se do restante de todo o miolo (travessia) do livro. Encerrar
como quem inicia. Eterno retorno.
Importa
lembrar que, encartado ao livro Galáxias,
o CD Isto não é um livro de viagem,
traz Haroldo de Campos lendo sua escrita. Inclusive a página “Fecho encerro”.
Mas se ali a voz do poeta é fala, com Cid Campos é canto, gestualidade
cancional. Com Haroldo, a cítara de Alberto Marsicano; com Cid, além de suas
guitarras, seu baixo e seu teclado solo, temos o teclado de Moisés Alves e a
bateria de Alexandre Damasceno, oferecendo os sons cósmicos que as galáxias
pedem. Em Haroldo, a entoação. Em Cid, a canção, a semiótica da melodia em movimentos
de distensão e tensão: andamentos, deslocamentos, acelerações, recuos, pausas.
Como
sabemos, o fato de alguns poemas terem a palavra “canção” no título não confere
cancionalidade implícita ao poema. Aliás, temos canções cujos títulos são
“Canção necessária”, “Canção que morre no ar”, “Canção pra você viver mais”.
Bem como “Poema”, “Estado de poesia”, “Poesia”. Adriana Calcanhotto, por
exemplo, inspirada por um poema de Wally Salomão, lançou um disco chamado A fábrica do poema (1994). É por aí,
nessas afirmações da impureza das linguagens que podemos ouvir Cid Campos
cantando, por exemplo, “me libro enfim neste livro”. O disco como livro: “como”
do verbo comer. Temos aqui um questionamento das categorias, ou das tipologias,
livro e disco.
Dito
de outro modo, quando lemos mentalmente um poema imaginamos entoações,
melodias, mas cabe a um cancionista traduzir, ou não, a linguagem verbal em
linguagem cancional. Defendo que não devemos mais confundir poemas que pagam
tributo às cantigas medievais – de amor, de amigo, de maldizer –, e que mais
tarde foram assentadas em canções líricas populares e, depois, com a difusão da
escrita, em poemas lírico/dramáticos, com aquilo que hoje entendemos – depois
de Luiz Tatit, principalmente, aqui no Brasil – por canção.
Achar
que canção é poesia musicada reduz a potência da canção enquanto linguagem artística
e mantém a hiper-valorização da poesia escrita. Creio que Caetano Veloso respondeu
a essa, a meu ver, falsa dicotomia quando cantou “Minha música vem da / Música
da poesia de um poeta João que / Não gosta de música // Minha poesia vem / Da
poesia da música de um João músico que / Não gosta de poesia”. Ou seja, canção
é um “outro retrato”, aglutinador, porém diferente. Desse modo, o que Cid
Campos apresenta em “Fecho encerro” é canção.
É
importante observar: Galáxias não é
um livro de canções. Assim como um livro de partituras, ou de letras de canções,
também não é um livro de canções. A canção só é no instante-já cancional. No
entanto, exatamente, por não ser canção, Galáxias
pode ser, digamos, cancionável no
trabalho do cancionista. Cid Campos demonstra isso.
Reforço:
a letra de canção não é a canção. Por sua vez, a versão instrumental de uma
canção é música, é trabalho do musicista, não do cancionista (que pode acumular funções), deixou de ser canção,
já que suprimiu a voz de alguém cantando. Canção é performance vocal calcada na
intencionalidade do emissor e na necessidade do receptor. Essa definição,
obviamente, difere, por questões contextuais, sociais, éticas e estéticas, por
exemplo, das trovas de Arnaut Daniel, dos lieder e, também, das songs without words de Schubert ou
Mendelssohn.
Em
“Fecho encerro”, Cid Campos aponta a restauração da voz do texto, a partir dos
esquemas rítmicos oferecidos pelo próprio texto, libertando-o do silêncio da
página e/ou da memória sonorafetiva
do leitor. Cid encontra uma forma-canção transmissora da experiência do
encerramento, ao capturar uma das possíveis dinâmicas vocais do texto. Ele localiza
a abertura para a ponte que liga uma linguagem (palavra escrita) à outra
(palavra cantada), posto que as linguagens estejam sempre negando suas
auto-suficiências. Nesse sentido, uma está sempre aberta a outra, puxando a
outra, supondo a outra.
Memória
e imaginação são mecanismos utilizados pelo cancionista a fim de “melhor cantar”.
Vem daí a eficácia do trabalho de Cid Campos. Não é o texto cabendo na voz, porém,
o amálgama. Aqui não interessa colocar a poesia escrita em primeiro lugar. A
canção é voz. Não saber sobre o que a letra trata também é um modo de ouvir
canção. Dançar é outro jeito de ouvir. Viajar no som também. A palavra-som já
basta. Não é preciso a palavra-sentido. Feito desse modo, o gesto de “musicar
um poema” é, em si, uma teorização do próprio gesto, um ordenamento, uma
posição ética, um investimento estético. No mais: “me zero não canto não conto
não quero”.
***
(Cid Campos / Haroldo de Campos)
28 novembro 2014
Tupi fusão
De
um trono-espelho no centro do palco, Ney Matogrosso aparece: imperativo,
emplumado, cigano, atento aos sinais, como sempre, amante da sorte. Flashes de
luz e câmeras fragmentam a imagem, nublam a visão da potência-ó em cena. A imagem pede passagem: “A cidade é tanto do
mendigo quanto do policial / (...) / Todo mundo tem direito à vida / Todo mundo
tem direito igual / Travesti trabalhador turista / Solitário família casal”
(“Rua da passagem”, Arnaldo Antunes e Lenine). E é assim, sem levantar
bandeiras individuais, mas disposto na vigília pelos direitos coletivos de
respeitabilidade mútua, que Ney Matogrosso faz do corpo e da voz instrumentos
contra a hipocrisia social.
Desde
sempre, a canção popular brasileira tem o árduo trabalho de ser o espelho por onde
a diversidade cultural se mira, onde o tabu vira totem. “A luta entre o que se
chamaria Incriado e a Criatura – ilustrada pela contradição permanente do homem
e o seu Tabu”, anotaria Oswald de Andrade. “No espelho minh’alma chora / Lá
fora está tão gelado / Sozinha nesta cozinha / Em pé eu tomo um café / Na pia a
louça suja / Me lembra da roupa suja / No tanque que a vida é” (“Noite torta”,
Itamar Assumpção), canta Matogrosso. Remelexendo-se criticamente em cena, via
instinto caraíba, Ney desvela uma série de sutilezas “que a brisa do Brasil
beija e balança” e aponta o “incêndio nas ruas / lixo na porta e na escada /
sangue em cada esquina mal dobrada” (“Incêndio”, Pedro Luís).
“então alguma coisa como canto sai de alguma
coisa como boca, alguma coisa como um á, um ó, um ó enorme, que toma primeiro
os ouvidos e depois se estende pelas costas, a penugem do ventre”, as
palavras de Nuno Ramos – Livro Ó –
me servem para entrar em contato com a pintura abstrata da figura em cena. A
vocoperformance de Ney Matogrosso é inaugural de novas/outras estruturas
críticas. E sintomática de um país que realiza a própria crítica no jeito de
corpo misturado de seu povo: profundamente afinado com as ideias de
antropofagia. Corpo político. Voz engajada. Ambos amalgamados, indissociáveis a
serviço do despertar do emblema Brasil, pelo sinuoso tecido de fios semióticos
exóticos de tão óbvios.
Do
centro da certeza da brevidade da vida, Ney entoa alto: “Vida louca vida / Vida
breve / Já que eu não posso te levar / Quero que você me leve / Tô cansado de
tanta babaquice, tanta caretice / Desta eterna falta do que falar” (“Vida louca
vida”, Lobão e Bernardo Vilhena). Agradece os aplausos, gritos e ais. E
lascivamente muda de roupa. Ali. Pele sobre pele. Pele por pele. Diante da
plateia que se realiza através do gesto do artista em cena. “Meu samba não se
importa se eu não faço rima / Se pego na viola e ela desafina / Meu samba não
se importa se eu não tenho amor / Se dou meu coração assim sem disciplina” (“Roendo
as unhas”, Paulinho da Viola), canta, como o artista-pensador da cultura que é.
“De fato, nós, filósofos e ‘espíritos livres’, ante a notícia de que o ‘velho
Deus morreu’ nos sentimos como iluminados por uma nova aurora; nosso coração
transborda de gratidão, espanto, pressentimento, expectativa [...] novamente é
permitida toda a ousadia de quem busca o conhecimento”, anota Nietzsche em A gaia ciência.
Ney
Matogrosso mistura canções, estilos, ritmos. Paulinho da Viola e Criolo;
Caetano Veloso e Lobão; Arnaldo Antunes e Vitor Ramil. Ele sobrepõe temas para
chegar ao grande-tema: o amor ao destino. “Eu sei / O tempo é o meu lugar / O
tempo é minha casa / A casa é onde quero estar / Eu sei” (“A ilusão da casa”,
Vítor Ramil), canta. Depois entoa uma oração que se opõe a qualquer atitude
segregacionista: “Peço aos céus para me protegerem e eu não hei de ceder / Ao
vazio desses dias iguais / Mal em mim nunca há de fincar / Mel em mim nunca há
de findar / Olhos nus e atentos aos sinais / Faço fé pra poder ver / A vida há
de ser sempre mais” (“Oração”, Dani Black). E isso não é pouco diante do
levante neopentecostal que tem visado a “assepsia” dos brasileiros.
Sobre
o tema, Ney Matogrosso sugere cantando: “No meu coração da mata gritou Pelé,
Pelé / Faz força com o pé na África / O certo é ser gente linda e cantar,
cantar, cantar / O certo é fazendo música / A força vem dessa pedra que canta
Itapoã / Fala tupi, fala iorubá” (“Two naira fifty kobo”, Caetano Veloso). E “No
verso aversão à imposição / Servo, sou não, faço a exposição / Sobre
condicionamento e catequização / Pobre estamento, mais injusta divisão / Nobres
no convés e os negros no porão / Conte de um até dez e prenda a respiração / Quem
controla o passado tem o futuro à mão / Conheça sua História, não durma, irmão
/ Fique esperto, liberto de qualquer exploração / Mais perto do certo, andar
com atenção / Antropofagia pra fugir da tensão / Sardinha no cardápio pra fazer
a digestão / Como não? Como sim, é apropriação / Nossa risada no fim tem mais
sensação / A resistência é a própria ação / A hora da virada é a nossa sanção”
(“Tupi fusão”, Vitor Pirralho). “Tupi fusão”, aliás, é o núcleo do show.
Atento aos sinais ao vivo
(2014) é um manifesto que não se limita a dar respostas. Há muito amor à vida,
para se reduzir a isso. “Bichos bichas punk anjos querubins / Iansã deus tupã
eu tudo enfim / Peter-Pan pó de pirlimpimpim / Também isso não vai ficar assim,
meu bem / Isso não vai ficar assim / Por isso beije-me / Como se fosse esta
noite a última vez” (“Isso não vai ficar assim”, Itamar Assumpção), canta o
menino no palco. E ainda: “No amor eu quero me afogar / Se for contigo eu quero
entrar nesse mar / Tanto calor que surge em te abraçar / Mas esse fogo é fogo
bom pra se queimar / Mas esse fogo é fogo bom” (“Não consigo”, Rafael Rocha). E
provoca: “Você nem imagina tudo que imaginei pra nossa rotina / (...) / Dia
sim, dia não essa fome divina” (“Beijos de Ímã”, de Jerry Espíndola, Alzira E,
Arruda e Ney Matogrosso). E Convida: “A confeiteira e seus doces / Sempre vem
oferecer / Furta-cor de prazer / E não há como negar / Que o prato a se ofertar
/ Não a faça salivar” (“Freguês da meia noite”, Criolo). E avisa: “Espero ouvir
você dizer que gosta de viver em perigo / Considerando que eu não seja nada
mais além de bandido” (“Fico louco”, Itamar Assumpção). E sublima: “Ninguém vai
nos entender / Querem se escandalizar / Até preferem fingir / Até preferem
matar / Até preferem morrer / Do que ter de aceitar / Que no mundo somos / Eu e
você” (“Pronomes”, de Beto Boing e Paulo Passos). E mira: “Essa é minha
situação / Eu quero sua atenção / E já fiz, imagino, até onde eu podia / Eu
penso até em desistir / O que eu posso fazer é ir / Não possuo tamanha tecnologia”
(“Samba do blackberry”, de Rafael Rocha e Alberto Continentino).
Em
cena, Ney Matogrosso é a potência-ó da tupi fusão.
***
Tupi
fusão
(Vitor
Pirralho)
VITOR PI
VIM EM TUPI
PRA ENTUPIR DE IDEIA
A CABEÇA DE TODA
TRUPE
Em tupi, entupiu
Canibal deglutiu
Tio samba aglutinou
Tu que viu, viu
Quem viu, quem
degustou
Gostou do que sentiu
Digeriu, arrotou
Canja de laranja,
casca de galinha
Isca de polícia,
farda de sardinha
A carapuça serviu
A batina caiu
Bloco carnavalesco,
pitoresco Brasil
VITOR PI
VIM EM TUPI
PRA ENTUPIR DE IDEIA
A CABEÇA DE TODA
TRUPE
Pintura rupestre,
tinta nanquim
Índio nordeste,
tupiniquim
Camisa da Levi’s e
calça jeans
No lugar de flecha,
bala e fuzis
Sequestro do chefe da
fundação
Na mesma língua, sem
confusão
Na mesma moeda, a
negociação
Capital estrangeiro,
pajé, capitão
Pé d’água, toró, como
chovia
De português, o tupi
se vestia
Se fosse no sol, tu
se despia
E dispensaria a
hierarquia
VITOR PI
VIM EM TUPI
PRA ENTUPIR DE IDEIA
A CABEÇA DE TODA
TRUPE
No verso aversão à
imposição
Servo, sou não, faço
a exposição
Sobre condicionamento
e catequização
Pobre estamento, mais
injusta divisão
Nobres no convés e os
negros no porão
Conte de um até dez e
prenda a respiração
Quem controla o
passado tem o futuro à mão
Conheça sua História,
não durma, irmão
Fique esperto,
liberto de qualquer exploração
Mais perto do certo,
andar com atenção
Antropofagia pra
fugir da tensão
Sardinha no cardápio
pra fazer a digestão
Como não? Como sim, é
apropriação
Nossa risada no fim
tem mais sensação
A resistência é a
própria ação
A hora da virada é a
nossa sanção
VITOR PI
VIM EM TUPI
PRA ENTUPIR DE IDEIA
A CABEÇA DE TODA
TRUPE
Vitor Pi, vim em
tupi, pra entupir de ideia a cabeça de toda trupe
Vitor Pi, versão
tupi, pra entupir de ideia a cabeça de toda trupe
13 novembro 2014
Convoque seu buda
“Os
vaga-lumes desapareceram? Certamente não. Alguns estão bem perto de nós, eles
nos roçam na escuridão; outros partiram para além do horizonte, tentando
reformar em outro lugar sua comunidade, sua minoria, seu desejo partilhado”.
São com essas palavras que Georges Didi-Huberman encaminha o encerramento do
seu livro Sobrevivência dos vaga-lumes.
Antes,
o autor escreve que “o ‘verdadeiro fascismo’ é aquele que tem por alvo os
valores, as almas, as linguagens, os gestos, os corpos do povo. É aquele que
‘conduz, sem carrascos nem execuções em massa, à supressão de grandes porções
da própria sociedade’, e é por isso que é preciso chamar de genocídio ‘essa
assimilação (total) ao modo e à qualidade de vida da burguesia”.
Didi-Huberman
está analisando “o poder específico das culturas populares, para reconhecer
nelas uma verdadeira capacidade de resistência
histórica, logo, política, em sua vocação antropológica para a sobrevivência”. Reconheço semelhante
gesto em alguns rappers brasileiros, a saber, entre outros: Mano Brown, Emicida
e Criolo.
Ouço
Criolo como um vaga-lume antropófago, contemporâneo, deglutindo as inúmeras
referências da cultura brasileira e mundial. As
canções do disco Convoque seu Buda
(2014) são tão autônomas quanto dependentes na montagem abstrata, via
deslocamentos, dessa cultura. Os sujeitos cancionais criados são vaga-lumes que
sobrepõem tradição e contradição.
A
rede de citações, reminiscências e referências a textos extra cancionais aponta
a inquietação de Criolo com a existência. E “o que mais pedir a um filósofo
senão inquietar seu tempo, pelo fato
de ter ele próprio uma relação inquieta tanto com sua história quanto com seu
presente?”, pergunta Didi-Huberman.
Dos
jogos sonoros aos elementos da sociedade do espetáculo, passando por
referências religiosas, nos exemplos a seguir, podemos identificar os alicerces
contraditórios, e, por isso, brasileiros, da cultura trabalhada por Criolo:
“Nin-Jitsu, Oxalá, Capoeira, Jiu-Jitsu / Shiva, Ganesh, Zé Pilintra e
Equilíbrio” (“Convoque seu Buda”); “Rap é forte, pode crer, Ui monsieur / Perrenoud,
Piaget, Sabotá, enchanted” (“Esquiva da esgrima”) “Temos de galão Dom Perignon
/ Veuve Clicquot pra lavar suas mãos / E pra seu cachorro de estimação /
Garantimos um potinho com pouco de Chandon” (“Cartão de visita”); “Alô,
Foucault, cê quer saber o que é loucura? / É ver Hobsbawm na mão dos boy,
Maquiavel nessa leitura” (“Duas de cinco”); “Fetiche de playboy é colar com
Barrabás” (“Fio de prumo”).
Mas
a complexidade das citações não se limita aos textos das canções. Notem-se
também as sobreposições sonoras. Por exemplo, podemos perceber a criação de outros objetos
melódicos, na textura de “Esquiva
da esgrima” - maracatu, rap, capoeira em amálgama - , bem como na mistura de percussão de samba com levada de guitarra elétrica (“Fermento pra massa”).
Aliada
a isso, adensando o emaranhado de fios-signos, há a voz de Criolo. Para cada
canção uma entonação, um modo de dizer, uma performance, um gesto vocal à
procura da batida perfeita do fazer cancional.
A
voco-performance de Criolo – canto/falado, fala/cantada – equilibra-se entre o
épico e o trágico, ou seja, entre a voz do povo de um lugar e a subjetividade.
Esse jogo entre local e universal amplia e potencializa a presença dos sujeitos
cancionais: “Verso mínimo, lírico de um universo onírico” (“Esquiva da
esgrima”). Sem contar com a ironia utilizada na performance vocal de “Cartão de
visita” adensando o esnobismo burguês apresentado na letra, por exemplo. “A
questão dos vaga-lumes seria, então, antes de tudo, política e histórica”,
escreve Didi-Huberman.
Por
sua vez, a contundente beleza terrível de “Casa de papelão”, canção que aborda
frontalmente o horror do crack e da falta de moradia, é exemplo disso: “Olhos
nos olhos sem dar sermão / Nada na boca e no coração / Seus amigos são um
cachimbo e um cão / Casa de Papelão (...) Toda pedra acaba, toda brisa passa /
Toda morte chega e laça (...) Prédios vão se erguer e o glamour vai colher / Corpos
na multidão”. Não à censura e sim ao olhar social dignificante, pois “Cada
maloqueiro tem um saber empírico” (“Esquiva da esgrima”).
Penso
ainda que “Plano de Voo” exemplifica bem o gesto antropófago de Criolo. Letra,
melodia e voz se amalgamam numa narrativa falhada,
numa não-narrativa. Temos aqui uma colagem, apropriações de elementos que não
se adequam, mas constituem a pintura abstrata potencializadora de voos do
pensar. As múltiplas imagens evocadas na letra proliferam o conteúdo do “plano
de voo” condensado no título da canção.
Vale
lembrar que em “Chuva ácida” (Ainda há
tempo, 2006), Criolo convidou: “Vamos parar com isso, aprender sobre a
coleta seletiva de lixo”; e em “Lion man” (Nó
na orelha, 2011) Criolo cantou “Vamos às atividades do dia: / Lavar os
copos, contar os corpos e sorrir / A essa morna rebeldia”. Agora, em “Casa de
papelão”, ele convoca: “Vamos cantar pra nossos mortos / Vamos chorar pelos os
que ficam / Orar por melhores dias / E se humilhar por um novo abrir”,
recusando o espetáculo comercializável e exaltando a dignidade civil.
Nesse
sentido, Criolo imita o caos da cidade, a caoticidade, por evocar a natureza da
cidade na língua da canção, promovendo um pensamento farmacêutico daquilo que
envenena. E vice-versa: “Do monstro que se constrói com ódio e rancor / A cada
gota de bondade uma de maldade se dissipou” (“Plano de voo”).
Mas
é em “Fio de prumo” que a antropofagia, isso que nos une socialmente,
economicamente, filosoficamente, alcança a justa solução estética. Depois de
uma introdução instrumental ruidosa, “Fio de prumo” abre com “Padê onã”, de
Douglas Germano, na voz de Juçara Marçal. É o preparo do encerramento dos
trabalhos do disco. É saudação e canto a Exu, Vodu e mensageiros da travessia e
do destino. Todos juntos no padê do céu dos orixás. Nesse sentido, fio de prumo
é instrumento usado na construção civil e, no caso, do cidadão – tema nodal das
canções de Criolo. E fio de prumo é o bastão de Exu, orixá da comunicação, dos
contatos.
Como
vemos, em Convoque seu buda a ideia
não substitui o sensível, a vida nua, a experiência crua. Ao contrário. “A
poesia existe nos fatos”, escreveu Oswald. Criolo imita na voz a natureza das mundivivências
que canta e inscreve vigor ao estilhaçar a narrativa – “Aço, peito, flecha,
caminho / Magma, lava, inveja, vizinho” (“Fio de prumo”) – de seus sujeitos
cancionais tiranizados pela língua e pela vida.
Criolo
é vaga-lume. Afirmo isso por encontrar na sua obra-vida um “saber-vaga-lume.
Saber clandestino, hieroglífico, das realidades constantemente submetidas à
censura” (Didi-Huberman). Em Criolo, “as imagens sonhadas sob o terror [“A estética do mal no terror psicológico”] tornam-se
então imagens produzidas sobre o
terror” (idem). Criolo implode os tipos que estão na base de nossos julgamentos
éticos e políticos, colocando de pé uma nova ontotipologia: “Cada coração é um
universo e ainda tem que bombear o sangue”, diz. A obra de Criolo convida: Se
oriente, rapaz. Se afroriente, rapaz.
***
(Criolo)
Laroyê Bará
Abra caminho dos passos
Abra caminho do olhar
Abra caminho seguro para eu passar
Laroyê Legbá Tomba o mal de joelhos
Só levantando o Ogó
Dobra a força dos braços que eu vou só
Laroyê Eleguá
Guarda Ilê, Onã, Orum
Coba xirê deste funfum
Cuida de mim que eu vou pra te saudar
Abra caminho do olhar
Abra caminho seguro para eu passar
Laroyê Legbá Tomba o mal de joelhos
Só levantando o Ogó
Dobra a força dos braços que eu vou só
Laroyê Eleguá
Guarda Ilê, Onã, Orum
Coba xirê deste funfum
Cuida de mim que eu vou pra te saudar
Muros de concreto: infeto
De pedra, cal, cimento: dejeto
Aponta pra cabeça: Ori
A cidade um cronista: Ogi
E a dobra do dorso do operário na rua
Labirinto, fauno, sombra, luz da lua
Aço, peito, flecha, caminho
Magma, lava, inveja, vizinho
Posto de saúde dos anos 80
AAS, Benzetacil, cibalena
Vida real dessa filosofia
Máquinas comem você, meio dia
O ponteiro, o relógio, a corrida pro pódio
A estética do mal no terror psicológico
Espelho, perdão, lâmina, credo
Ocupar essa praça, honesto
A favela aguarda atenta ao revide
Manifesto vira piada, declive
Corrida clichê desagradável, Pai
Fetiche de playboy é colar com Barrabás
Todos os dias na biqueira alguém vai
Pra deixar um pouco mais a alma em stand by
O que faremos, então? Sem provocar alarde
Sepulcro mediano me mate nessa tarde
Beberemos
Nesta água, Nicodemos
Oremos
Pois vamos suar veneno